A Chegada

A Chegada (Arrival) (Drama/Mistério/Sci-fi); Elenco: Amy Adams, Jeremy Renner, Forest Whitaker; Direção: Denis Villeneuve; USA, 2016. 116 Min.

Esqueça tudo o que você viu do gênero ficção científica. Há muito não se vê um filme do nicho com uma pegada poética e sem ação. Isso mesmo, “A Chegada” talvez seja um precursor de um novo gênero ou de um ‘entre gênero’. Misturando Nolan com Malick e versando sobre linguística como nem Godard ousou fazê-lo, Denis Villeneuve se aventurou e nos trouxe uma história que mistura a lenda do ‘Antigo Astronauta’, filosofia da linguagem e a quebra da relação temporal como a conhecemos – na área da física – num filme surpreendente.

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A lenda do antigo astronauta postula que a linguagem humana e suas manifestações culturais vieram do hibridismo com seres extra-terrestres, como nos mostra magistralmente “2001: Uma Odisséia no Espaço” (1968) com um outro viés. Em “A Chegada” um grupo de extraterrestres dispostos em 12 naves megalíticas que se estabilizam sobre pontos nada estratégicos: Montana, Venezuela, Serra Leoa, Reino Unido, Sudão, Paquistão, Mar Negro, Sibéria e Austrália e assustam os terráqueos. Escolheram de povoados aborígenes com população mínima à áreas com grandes concentrações populacionais, de desertos aquáticos, terrestres, gélidos e silenciosos a países em conflitos e conectam os opostos, os diferentes, os díspares e o heterogêneo. O roteiro prima pela vertente da comunicação com as personagens da  Drª Louise Banks (Amy Adams), uma linguísta; de um físico: Ian Donelly (Jeremy Renner) e dos militares, representado pelo Coronel Weber (Forest Withaker) – o nome nos remete a Max Weber um dos pensadores da sociologia – esses formam a equipe escolhida para contatar os alienígenas e saber o motivo da visita. Esse núcleo junta a força, a ciência e a subjetividade da linguagem. As metáforas imagéticas do filme são de desconstrução de significações engessadas num código linguístico (cair para cima, lembrar do futuro etc…). Villeneuve brinca com a estrutura do pensamento numa divagação para cinema, no mínimo, ousada. Principalmente, porque é lenta e altamente subjetiva.

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Denis Villeneuve usa o mote da comunicação para falar da nossa constituição humana primitiva, sobre o quanto a linguagem molda a nossa forma de pensar e de ver o mundo. E, é claro, entrar na área da Física sobre a explosão do tempo, criticando a nossa linearidade temporal fossilizada de forma poética. E nisso, a intercessão com “Interestelar” é inevitável. E nos permite fazer a comparação entre as diferentes abordagens, o cientificismo de Christopher Nolan e a simplicidade de Denis Villeneuve. Diretor competente e sempre figurando nos Oscars em uma ou outra categorias, Villeneuve é conhecido por “Os Suspeitos (2013); “Sicário: Terra de Ninguém” (2015) e “O Homem Duplicado” (2013). Cá para nós, um indivíduo que ousa fazer uma adaptação da obra de José Saramago, e ainda mais essa, já merece um prêmio. Sempre abordando subjetividades o diretor não descuidou de nada, e para fechar redondinho, contratou a consultoria de Stephen Wolfram, especialista em matemática, ciências da computação e  física teórica.

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Baseado no livro “Story of Your Life” de Ted Chiang “A Chegada” foi roteirizado por Eric Heisserer de “Quando as Luzes se Apagam” (2016) e tem como compositor Jóhann Jóhannsson que começou a fazer a composição que fala sozinha e que se encaixa como uma luva, antes de começar as filmagens. A fotografia é o forte do filme e ganhou o Sapo de Prata no Camerimage (o Oscar da fotografia), e é assinada por Bradford Young  de “Selma: Uma luta Pela Igualdade” (2014). Tudo em “A Chegada” se encaixa bem,o que soa dissonante, o é de propósito e para melhor: a inserção da poesia e da emoção num filme de ficção científica que não tem ação, é lento e  versa sobre códigos linguísticos. E isso  só valoriza o longa contextualizando-o  nos novos tempos da ciência em que a metafísica e as incertezas já são extensões admissíveis e já andam de mãos dadas com a ciência tradicional oficialmente. Villeneuve e Heisserer fazem ainda uma bordagem filosófica sobre códigos linguísticos e união dos povos/espécies. “A chegada” está mais para “Contato” (1997) do que para  “Independence Day”(1996), é mais acessível que “Interestelar” (2014) e tão poético quanto  “A Árvore da Vida” (2011). Ou seja, é hibrido de gênero, sem dúvida.

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O Longa de Villeneuve é uma versão pós-moderna da Teoria do paleocontato com uma releitura contextualizada de “2001:Uma Odisseia no Espaço”: o ‘osso/arma’ é mais moderno. É, também, uma viagem poética de autoconhecimento, de aceitação e de ressignificação da vida. O filme não seleciona público, é para todos os gostos, porque também tem uma pegada de blockbuster. “A Chegada” prova que o cinema é um grande puxador de conversas, e de alto nível. E já aterrissou nas salas de exibição.  Arrasador cinematográfica, científica e filosoficamente.

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About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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