Como Você É

Como Você É (As You Are) (Drama/Mistério); Elenco: Owen Campbel, Charlie Heaton, Amanda Stenberg, Scott Cohen, Mary Stuart Materson; Direção: Miles Joris-Peyrafitte; USA, 2016. 110 Min.

“Como Você É” é o primeiro longa-metragem de Miles Joris-Peyrafitte como diretor, e sem se intimidar Miles também roteirizou e deu uma mãozinha na trilha sonora. Mas, o forte é o roteiro. Numa estrutura narrativa de “Rashomon” (1950) misturada a descoberta da sexualidade no contexto da década de 90 e numa sociedade normativa, Miles decidiu dar ênfase a dificuldade de autoaceitação por parte de um jovem que se descobre com orientação sexual homoafetiva. Numa história entrecortada em que são apresentadas várias versões para um acontecimento, o filme versa sobre o quanto uma educação rígida e  uma sociedade hipócrita podem trazer de sofrimento para um indivíduo. O longa fala sobre as consequências de uma educação e de uma sociedade homofóbica. Peyrafitte aborda a questão da autoaceitação, da administração do desejo e  fala sobre a constituição de alma de cada um de uma forma sensível e sutil em alguns momentos e contundente em outros. E essa bipolaridade é proposital e encontra eco na história.

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Jack (Owen Campbel) é menino que não se sente atraído por meninas, gosta de seus amigos,  nunca teve uma relação sexual e é tímido. Criado por Karen (Mary Stuart Materson), uma mãe sozinha, sensível e dedicada. Um dia Karen conhece Tom (Scott Cohen), pai de Mark (Charlie Heaton), um homem severo e disciplinador. Vão todos morar juntos formando, então, uma família. Mark e Jack Estudam na mesma escola e conhecem Sarah (Amanda Stenberg). Todos adolescentes, todos no Ensino Médio, todos vivendo a fase de descoberta do sexo, da vida e de si mesmos. E assim, a história começa com complexas ligações e camadas múltiplas. Miles e Madison Harrison  abordam a heterossexualidade, a homoafetividade, a cultura da violência numa sociedade armada até os dentes e a relação entre pais e filhos. E faz tudo isso a partir de pontos de vista de lembranças de um acontecimento através de depoimentos policiais. A história se apresenta vista de vários lugares, mas sua maestria é deixar o lugar do espectador reservado. Muito parecida com “O Cheiro da Gente” (2014) quanto ao nicho de atuação  – a sexualidade adolescente – “Como Você É” só não se aventura pelo submundo. Mas traz todos os questionamentos sobre sexualidade e seu exercício, incluindo o choque de gerações.

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O longa-metragem se propõe a uma reflexão sobre a educação e a nocividade da normatividade; sobre os valores imiscuídos às relações do cotidiano e as expectativas alheias; sobre a coragem que alguém tem que ter para ‘peitar’ o mundo e a si mesmo quando se descobre ‘infringindo’ uma norma silenciosa. A saga do sofrimento de Mark é uma lamparina para chamar atenção para o poder dos instintos. E a maneira com a qual Miles Joris-Peyrafitte fez a abordagem é toda especial. É um filme que, no que diz respeito a cenas sexualizadas, é leve. Mas nos quesitos violência de uma sociedade e familiar é muito forte e angustiante. Miles marca o tempo de sufocamento e de desespero em silêncio e em slow motion numa tensão assustadora e quase real. “Como Você É” é um filme forte, tocante e sem pieguice que coloca o adolescente para falar do seu jeito e da sua maneira, que assalta os ouvidos do espectador e pergunta ao final o que você acha e pede a sua versão de forma genial.

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Ganhador de Prêmio Especial do Juri do Festival de Sundance o longs tem atuações maravilhosas de três jovens: Owen Campbel de “Boardwalk Empire” (2010). Charles Heaton de “Stranger Things” (2016) e Amanda Stenberg de “Jogos Vorazes” (2012). Além de uma trilha sonora dual (lancinante e tocante ao mesmo tempo) assinada por Patrick Higgins. A fotografia é do cinegrafista de documentários Caleb Heymann e a edição – aspecto importante na forma narrativa escolhida – é de Abbi Jutkowitz em seu primeiro trabalho como titular de edição em longa-metragens, mas com uma boa experiência em equipes de edição de grandes produções como “X-men: Primeira Classe”. Aliás, “Como Você É” tecnicamente é um festival de profissionais que estão começando e se descobrindo  profissionalmente, como os adolescentes da história em relação às suas vidas.

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Em suma a produção americana dirigida por Miles Joris-Peyrafitte é um filme que merece ser visto com um olhar demorado. Um aspecto digno de atenção é o das metáforas, tanto a do armamento de uma sociedade quanto a do falo x carro , os dois símbolos de “macheza”: a natural e a construída. O filme não tem cenas pesadas, não é apologia a nada. É, simplesmente, um relato poderoso do processo de turbulência da adolescência no âmbito da descoberta da sexualidade no contexto de uma sociedade machista e homofóbica, sem usar essas palavras uma unica vez sequer. A classificação indicativa é de 16 anos, por conta da violência. “Como Você É” é poderoso e forte!

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  • Editado 11/12/2016
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About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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