As Mil e Uma Noites: Vol 2, O Desolado

As Mil e Uma Noites: Vol 2, O Desolado (Drama); Elenco: Crista Alfaiate, Chico Chapas, Luisa Cruz; Direção: Miguel Gomes; Portugal/França/Alemanha/Suíça, 2015. 131 Min.

Na segunda parte da trilogia que se pretende uma saga questionadora dos aspectos políticos de um momento na vida de Portugal e de seu povo, Miguel Gomes se volta para a conexão do particular com o geral. O cotidiano dos cidadãos e seus valores são a argamassa que conecta os aspectos de injustiças, seja social, econômica, criminal ou de ordem pessoal.

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Telmo Churro, Mariana Ricardo e Miguel apresentam ao público Simão sem tripas, um criminoso que matou a família e orgulhosamente foge da guarda sem ser pego, em: “Crônica de fuga de Simão ‘Sem Tripas'”. Nele, a trinca de roteiristas mostra o paradoxo entre um vilão e um herói, a dissonância do conceito de justiça nas ações de seus personagens e fecha a conclusão sobre o tema com o episódio: “As Lágrimas da Juíza”. Aquela que tinha bem desenhado dentro de si todos os conceitos e arcabouços de certo e errado e acaba percebendo que todos têm pecados, logo nenhum de nós tem condição de exercer, de fato, a justiça. E por fim, entranha esse limbo não-decisório na vida de dois idosos, mostrando-nos sua vida e o desfecho permeado por questões sociais, no episódio: “Os Donos de Dixie”. Aqui  o leque de abrangência é grande, vai das crianças e seu futuro desesperançoso com pais sendo despejados, passando pelos jovens que não conseguem emprego e dependem de programas sociais aos idosos. Traz metáforas belíssimas, como as do elevador emperrado que impossibilita um terço dos moradores do prédio a ascenderem a seus lugares de residência por conta dos cabos corroídos que não são consertados e a  do cão Dixie e sua conexão com a metafísica.

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“As Mil e Uma Noites: Vol 2, O Desolado” desconstrói o arcabouço do conceito de respeito, faz um passeio pelo mecanismo de desmoronamento dos serviços públicos, traz um painel dos pequenos desvios que trazem grande prejuízo ao cidadão comum, na saúde, por exemplo.Tudo isso através de diálogos e conversas. E nos mostra como os episódios cotidianos estão conectados, versa, ainda,  sobre a previdência e o questionamento da caridade como solução para as questões sociais. Enfim, nesse volume Miguel Gomes fala de aspectos difíceis de abordar de forma lúdica e bela.

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Quanto as tecnicalidades, aqui a narrativa em off é uma constante, com relatos muito bem estruturados semântica e poeticamente. Um destaque que não pode passar despercebido pelos brasileiros é a música “Que Beleza” na voz de Tim Maia. “As Mil e Uma Noites: Vol2, O Desolado” é o capítulo mais relevante em relação aos aspectos sociais.

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About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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