O Invasor Americano

O Invasor Americano (Where to Invade Next) (Documentário); Participações: Michael Moore; Direção: Michael Moore; USA, 2015. 120 Min.

“Eu, você, todos temos que ser ativistas políticos. Se não formos politicamente ativos, a democracia deixará  de existir” (Michael Moore)

Introdução

Nascido de uma pesquisa de mestrado sobre Cinema e Educação, o Blog Cinema e Movimento se propõe a analisar o poder de alcance do cinema em suas mensagens, seja no aspecto quantitativo – por ser um veículo de massa – como também no aspecto da impactação (BENJAMIN, 2012), tanto pela técnica cinematográfica como pela forma com a qual os assuntos são abordados e o quanto eles conseguem trazer de potência de pensamento nas questões que propõe (DELEUZE, 1992). Mais do que um produto comercial, o cinema é também um veículo ideológico, um instrumento filosófico e uma possibilidade de conversas, um ‘puxador de assuntos’.

Longe de levantarmos bandeiras ideológicas, o termo movimento – constante na razão social do veículo –  se refere as possibilidades que o cinema traz de tirar do lugar comum, da zona de conforto de nosso cotidiano partindo de um pesamento de Einstein: “Uma mente que se abre para uma nova ideia, jamais volta a seu tamanho original”. Baseado neste alicerce de sustentação de abordagem o blog coloca em prática o projeto “Recomendados” uma nova categoria que trará mensalmente um filme de fácil acesso às massas – normalmente plataforma streaming (online) – que aborde temas punjantes, necessários e que são subtraídos de nossas conversas. Seja pela polêmica, seja por interesses hegemônicos ou pelo que for. Mensalmente esta categoria trará sugestões de filmes ou documentários para seu leitor através de ensaios cinematográficos – com referenciais teóricos  – ou resenhas cinematográficas com referências para além do cinema como Literatura, História ou mesmo, as redes de significações de quem escreve.

A nossa primeira recomendação de 2017 é “O Invasor Americano”.  Um documentário dirigido e roteirizado por Michael Moore disponível online gratuitamente e que traz ideias utilizadas por países europeus para resolver questões educacionais, de inclusão social, de políticas sociais e econômicas. Ao contrário de seus outros documentários, aqui Michael Moore é suave, sem abrir mão da ironia e do humor ácido.  O diretor, roteirista, produtor e documentarista, mais conhecido por seu criticismo irreverente ao sistema político americano, “invade” nove países da Europa em busca de respostas para as questões sociais norte-americanas. Os temas variam de direitos trabalhistas à política fiscal; de Educação Infantil à Educação Superior; de qualidade de vida à política anti-drogas; de sistema prisional à igualdade de direitos entre homens e mulheres.

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O documentário

” O Invasor Americano” se encontra categorizado como documentário e se divide em nove partes bem conectadas que se caracterizam pelos noves países visitados, e em cada um deles o assunto que leva Michael Moore a ‘confiscar’ a ideia para leva-la para seus país como uma possibilidade de solução para questões internas, são o que esses países têm de melhor em seus destaques de bom sucedimento  como participantes de uma comunidade internacional. Nesse ir e vir Michael denuncia os problemas norte-americanos com analogias sarcásticas, bem humoradas, irônicas e, em alguns casos, até contundente , como por exemplo, a do sistema prisional americano.

Na Itália os assuntos são as leis trabalhistas, o bem-estar social, a política fiscal e o retorno dos impostos aos seus contribuintes. Para buscar dados, conversa com empregados e patrões. Na frança visita uma escola pública de Educação Infantil na Normandia, na hora da refeição, e descobre o que é educação alimentar e porque a frança é famosa, também, por sua cozinha. E mais uma vez entra na pauta a política fiscal. Sem deixar de dar uma safanada na alimentação americana e na sua política de impostos. Na Finlândia, se detém na Educação Básica – aqui, Fundamental e Médio – entrevistando o ministro da educação, profissionais da área  e alunos sobre conteúdos escolares para descobrir por que a Finlândia é famosa por ter a melhor educação do mundo. Na Eslovênia mergulha no Ensino Superior visitando a Universidade de Liubliana. Versa sobre a gratuidade do ensino esloveno, o nível de politização de seus alunos e da população e é recebido pelo Presidente da Eslovênia, Borut Pahor. Não bastando, Michael Moore vai descansar os neurônios na Alemanha para descobrir o aprendizado do bem-viver – qualidade de vida e de relações – a partir da reflexão que Alemanha faz sobre o passado através da Educação. Lembrar o passado, examinar as feridas e repensa-las para não repeti-las. Em Portugal busca informações sobre a política  anti-drogas, muito bem sucedida naquele país. Entrevista policiais e o responsável pela implantação do projeto  e das ações no âmbito em questão. E mais uma vez, faz analogias com a política anti-drogas americana desde a década de 60 até os dias atuais e descobre a coluna vertebral dos princípios jurídicos de Portugal: a dignidade humana. Na Noruega conhece o seu sistema prisional, o modelo e o de segurança máxima e descobre que a diferença não está na lei ou na imposição de normas e regras, mas no cuidado com o humano. Descobre que a diferença está na compreensão das necessidades e na prática dessa compreensão. Na Tunísia visita centros de apoio à mulher e conhece a política  social que os cria. E o que mais surpreende é que a Tunísia é um pais muçulmano com um elevadíssimo grau de compreensão e exercício dos direitos da mulher, o que muito pouca gente sabe. E por fim, vai a Islândia descobrir como funciona a igualdade entre homens e mulheres por lá. O filme de Michael Moore poderia se chamar ” Achados e Perdidos da América” pois em todos os lugares por onde passou, de alguma forma, a inspiração àqueles programas e posturas foram os ideais americanos de liberdade e igualdade.

Michael Moore pode ser comparado a Gore Vidal – salvaguardadas as devidas proporções – no que diz respeito à sua veia crítica corrosiva em relação à política americana. Embora Vidal fosse mais elegante, Moore tem mais alcance por sua popularidade, seu tom jocoso e assuntos os quais aborda: cultura armamentista, questionamento dos conglomerados empresariais transnacionais, desigualdades sociais, econômicas e a hipocrisia política. Jornalista de formação, Michael Moore é considerado, à boca pequena, o Tom Paine da modernidade por seu ineditismo e coragem em tocar em assuntos que ninguém quer falar. Com 17 filmes no currículo, dentre eles: “Tiros em Columbine” (2002) – que ganhou o Oscar de Melhor Documentário – “Fahreinheit 9/11” (2004) – que ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes –   “Capitalism: A Love Story” (2009) e  “Michael Moore in Trumpland” (2016), além de 7 livros publicados, dentre eles: “Eu Adoro Problemas” (2011), Michael se destaca como um cineasta de esquerda, altamente questionador e que não tem  o menor constrangimento em colocar o dedo sobre as feridas da América. Postura, essa, que nem sempre lhe rendeu louvores.

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O lugar da obra em nossas reflexões

“O Invasor Americano” é um filme que traz para as conversas o tema : políticas públicas, num momento em que o mundo inteiro diminui o estado de bem-estar social e sequer cogita diminuir taxas ou impostos. E ainda organiza um labirinto burocrático para quem, apesar de todas as restrições, mantém os seus direitos. “Eu Daniel Blake” (2016) de Ken Loach é um excelente exemplo dessa estratagema. Mas , o longa em sua proposta reflexiva vai mais longe. Ele se põe como um manto de possibilidades de aspectos a serem pensados em todas as vertentes apresentadas em cada entrevista: aspectos culturais, valores humanos e tantos conceitos que fazem parte de nossas redes educativas, de significações e de produção de sentidos. E nessa linha de raciocínio, para situar o que quero dizer tomo a liberdade de citar Deleuze: “Há efetivamente uma outra coisa um tanto misteriosa que aparece em certos momentos, ou que transparece, e que parece ter uma existência fluída entre o conceito e o plano pre-conceitual indo de um a outro (…) uma aptidão de pensamento para se ver e se desenvolver que me atravessa em vários lugares (…) esses personagens se tornam, eles mesmos, coisa diferente do que são historicamente, mitologicamente ou comumente (…) o personagem conceitual é o devir ou o sujeito de uma filosofia (…) os personagens conceituais são verdadeiros agentes da enunciação (…) as diferenças entre personagens conceituais e  as figuras estéticas consistem de início no seguinte: uns são potência de conceitos, outros são potências de afectos e perceptos” (DELEUZE & GUATARRI, 1992;p.80-87). Aqui, Deleuze define o que seria potência para a formação de um conceito – na filosofia/pensamento – e potencia de afetos e percepção – relativo a arte. O cinema contendo os vários espaços: de pensamento e de arte se estabelece como uma possibilidade de  se caracterizar como um personagem conceitual em relação as possibilidade de pensamento. “Os filmes (…) entram neste lugar, no de heterônomos do filósofo, aquele que traz questões para serem pensadas, são as imagens de pensamento que fomentam as reflexões, mas que, sendo figuras estéticas adentram a área de afectos e perceptos. O cinema junta os dois, o personagem conceitual e a figura estética, pois evoca a potência de conceitos e atinge a percepção por meio da emoção com suas imagens, com um código aberto e sua narrativa imagética, textual e musical” (ROCHA, 2016; p.75)Juntando a tudo isso o poder de alcance e de tatibilidade, o choque a que Benjamin se referia  temos um veículo poderoso para fazer pensar: “O cinema liberou o efeito de choque físico da embalagem, do efeito de choque moral, em que o dadaísmo o manteve como que empacotado (…) a massa é a matriz, da qual, atualmente, todo o comportamento familiar diante de obras de arte emerge de modo renovado” (BENJAMIN, 2012; p.109).

Temos, então, um pacote fechado do poder do cinema sobre as massas com seu poder de alcance, choque e reflexão. O cinema é isso: instrumento de veiculação de ideias para além do entretenimento. E nessa seara, falando de política, que é o que “O Invasor Americano” faz, não tem como não lembrar de Sergei Einsenstein, um filho de classe média que lutou na revolução de 1917 (lado oposto ao do pai) que juntou-se ao exercito vermelho e que foi um dos mais importantes cineastas russos, e quiçá, da História do Cinema. Com seus escritos inovadores, à época, sobre montagem e sua ideologia, acreditava que o cinema era o maior instrumento para se fazer a revolução – à maneira de sua crença – criando o que chamou de montagem intelectual onde política e arte se misturam e caminham juntas. Dirigiu “A Greve” (1925); “O Encouraçado Potemkin” (1925) e “Cavaleiros de Ferro” (1938), obras-primas do cinema, de cunho político, mas que estão acima de suas ideologias pela sua arte cinematográfica e por seu lugar na História do Cinema. Lembrando que levamos tudo o que somos para o que fazemos. Para um russo que viveu em plena revolução e respirava política não podia ser diferente.

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Considerações finais

Em suma, “O Invasor Americano” por suas possibilidades nos leva a vários lugares. O filme em que Michael Moore ‘invade’ a Europa para saber mais sobre políticas públicas que poderiam resolver as questões sociais americanas, tem duração de duas horas e foge à linha de contundência do cineasta trazendo uma reflexão calma e um convite à sensibilidade. O documentário é uma ode à possibilidade de bondade em uma sociedade mundial e evolução humana no trato social, das escolas às prisões. Moore nos mostra que temos capacidade de fazer do mundo um lugar melhor através de ideias e ações que têm em seu bojo a dignidade humana. E faz isso mostrando os atravessamentos educacionais, políticos e estruturais que tornaram os projetos apresentados possíveis. Michael Moore através de “O Invasor Americano” faz uma crítica severa a mesquinhez, a crueldade e a ganância.

Disponibilização do link (em português).

Em outros idiomas está disponível na plataforma Netflix.

Referências:

BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica. Porto Alegre: Zouck, 2012.

DELEUZE, Gilles; GUATARRI, Félix. O que é a Filosofia?Rio de Janeiro: Editora 34, 1992.

ROCHA, S.M.S.P. Os cotidianos e as redes educativas no pensar a ausência de escolas nos registros cinematográficos dos westerns americanos. Rio de Janeiro: Proped/UERJ, 2016 (dissertação de mestrado) disponível no BDTD/UERJ.

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About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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2 Responses to O Invasor Americano

  1. Antonio Manuel says:

    Boa noite. Caro amigo, você aceitaria sugestões de filmes para futuras resenhas ( TÃO BRILHANTES E EXTENSAS COMO ESSA)? Muito obrigado pela atenção e um forte abraço. FELIZ ANO NOVO!!!!! Em dom, 22 de jan de 2017 às 19:05, cinemaemovimentoblog escreveu:

    > > > > > > > > > > > > > > > > > > Sonia Rocha posted: “https://www.youtube.com/watch?v=1KeAZho8TKo > > O Invasor Americano (Where to Invade > Next) (Documentário); Participações: Michael Moore; Direção: Michael Moore; > USA, 2015. 120 Min. > > “Eu, você, todos temos que ser ativistas políticos. Se não formos > politicame” > > > > > > > > > >

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