A Morte de Luis XIV

A Morte de Luis XIV (La Mort de Louis XIV) (Biografia/Drama/History); Elenco: Jean-Pierre Léaud, Patrick D’Assumção, Marc Susini, Bernanrd Belin, Iréne Silvagni; Direção: Albert Serra; Portugal/França/Espanha, 2016. 115 Min.

Falado em latim e francês, dirigido por um espanhol e produzido por Portugal, França e Espanha “A Morte de Luis XIV” é um relato dos últimos dias do monarca absolutista francês cujo reinado foi o mais longo e próspero da História daquele país. E um desfile de fotografia, direção de arte, figurino e cabeleireiro. Com um roteiro que nos apresenta a mentalidade do século XVII – poi Luis XIV morreu no início do século XVIII – o longa metragem é um primor artístico e histórico apresentado no telão do cinema. Um manjar pictórico para historiadores, artistas plásticos e admiradores das artes visuais de forma geral. E ainda tem no elenco o dinossauro Jean-Pierre Léaud em uma interpretação magistral.

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O ano é 1715. Depois de 72 anos de reinado, Luis XIV  (Jean-Pierre Léaud) começa a sentir dores nas pernas, passa a ter dificuldade para andar e inicia um processo de gangrena. A história, apesar de não ser tão precisa, é conhecida. Mas a magistralidade está na forma com a qual Albert Serra e o roteirista Thierry Lounas contam-na. Eles deslizam sobre as mesuras da corte, as crenças científicas, o charlatanismo e toda uma mentalidade de uma época. Enfatizam o quanto a vida de um monarca, mesmo um absolutista, tinha seu destino nas mãos dos nobres conselheiros e nos imerge num mundo pictórico irretocável. “A Morte de Luis XIV” é uma viagem pelos retratos da época renascentista. Nos evoca as obras de Rembrandt (1606-1669) e dá um show de cinematografia que nos remete ao memorável “Barry Lyndon” (1975) de Stanley Kubrick.

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Albert Serra de “Honra de Cavalaria” (2006) foi primoroso nos detalhes, nos closes, na ênfase à claustrofobia, possivelmente, numa metáfora do tanto que não sabemos sobre Luis XIV, e  faz takes longos de rostos e  faces como se fossem retratos pintados à mão. O roteiro de Thierry Lounas, produtor de “Pasolini” (2014) e Albert Serra não foge das circunstâncias e é econômico e preciso. Já a fotografia de Jonathan Ricquebourg merece ser apreciada vagueando o olhar, e o ‘time’ dos takes  permite isso. Outros destaques são o figurino, a maquiagem e o trabalho de cabelos. O filme é todo visual e é aí que reside sua força. O que fecha com chave de ouro essa linha de perfeição é a interpretação de Jean-Pierre Léaud de “Os Incompreendidos” (1959) de François Truffaut e “Masculino-Feminino” (1966) de Jean-Luc Godard. Hoje um senhor agraciado com a Palma de Ouro pelos serviços prestados à arte cinematográfica.

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“A Morte de Luis XIV” seleciona público pela sua forma e narrativa lenta. São quase duas horas de sofrimento com Luis XIV, como se lá estivéssemos, acompanhando um processo de gangrena com direito a consultas com especialista e charlatões e sob a égide da ignorância científica de uma época e a sua linha de aprendizagem (atenção para última frase do longa). Os espectadores que têm suas redes de significações em História, Artes, Filosofia e afins se sentirão em casa. Para os demais pode soar demasiado chato. Mas, independente disso o longa é um belo painel de artes cênicas e visuais.

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About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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