Estrelas Além do Tempo

Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures) (Biografia/Drama/História); Elenco: Taraji P. Henson, Octavia Spencer, Janelle Monáe, Kevin Costner, Kirsten Dunst, Jim Parsons, Mahershala Ali; Direção: Theodore Melfi; USA, 2016. 127 Min.

Sempre me pergunto onde estão os pensamentos dos tradutores quando titulam a versão brasileira dos filmes. “Hidden Figures” – figuras ocultas ou escondidas em tradução livre – é muito mais apropriado à história contada em “Estrelas Além do Tempo”. Tanto em relação a abordagem do filme, quanto em relação ao fato,  real e Histórico, do mundo não conhecer as mulheres negras que faziam parte do departamento de matemática da NASA e que foram responsáveis pelo sucesso do projeto espacial americano. Mais especificamente, pelo cálculo que possibilitou o retorno de capsulas espaciais à terra depois de orbitarem. Indicado a três Oscars (melhor filme, melhor atriz coadjuvante para Octavia Spencer e melhor roteiro adaptado) o longa é um desagravo a este grupo de mulheres afro-americanas depois de 55 anos de ostracismo. Ancorado na pessoa de Katherine G. Johnson (hoje com 98 anos) o filme dirigido por Theodore Melfi de “Um Santo Vizinho” (2014) se situa em 1962, no projeto Mercury que lançou em órbita John Glenn na nave Friendship 7 e que foi de suma importância para o desfecho da Apollo 11 em 1969, sagrando os EUA como primeiro país a pisar na lua.

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“Estrelas Além do Tempo” conta a história de Katherine (Taraji P. Henson), uma matemática brilhante, que fazia parte da equipe da NASA para projetos espaciais e que fora transferida para o setor de cálculos, local em que só havia homens; sua adaptação a este meio e participação num momento histórico para o programa espacial americano. Além disso, o longa faz um passeio pela política de segregação racial da NASA na década de 60, mostrando as dificuldades enfrentadas pelas funcionárias. E aproveita, é claro, para mostrar o quanto a participação dessas mulheres foi importante para a quebra de paradigmas da instituição nesse sentido. Com um roteiro adaptado baseado no livro de Margot Lee Shetterly escrito a quatro mãos por Allison Schroeder (uma mulher) e pelo próprio Theodore Melfi o longa consegue transpor a visão feminina das questões postas de uma forma leve e graciosa.

Taraji P. Henson plays Katherine Coleman Goble Johnson, American physicist, space scientist, and mathematician in "Hidden Figures." (PRNewsFoto/PepsiCo)

Taraji P. Henson plays Katherine Coleman Goble Johnson, American physicist, space scientist, and mathematician in “Hidden Figures.” (PRNewsFoto/PepsiCo)

O filme cumpre seu papel de trazer à público uma história real e de suma importância para a forma com a qual as mulheres e negros são vistos nas sociedades. Pois Katherine G. Johnson, Dorothy Vaughan (Octavia Spencer) e Mary Johnson (Janelle Monáe) foram mulheres negras que se destacaram na área que é considerada a elite da cognição – a matemática – quebrando a crença da inferioridade intelectual de gênero e de raça. E que ficou oculto do grande público por mais de meio século. Se existisse uma categoria no Oscar de quebra de paradigmas esta seria a de “Estrelas Além do Tempo”. Porém, é um filme, em sua arte cinematográfica, comum e sem a maestria de “A Chegada”, em relação a interpretação e roteiro; ou “Manchester à Beira-Mar”, por suas interpretações e ineditismo de tocar na filosofia existencialista americana; ou, ainda, “La La Land: Cantando Estações” com sua graciosidade artística. E parece figurar no Oscar como questão de desagravo mesmo, o que também se estende à indicação de Octávia Spencer de “Histórias Cruzadas” (2011). O forte do longa-metragem é a direção de Arte de Jeremy Woolsey, o figurino de Renee Ehrlich Kalfus de “Chocolate” (2000) e a trilha sonora da trinca Hans Zimmer de “O Rei leão” (1994), Benjamin Walfish de “12 Anos de Escravidão” (2013) e Pharrel Williams de “Meu Malvado Favorito 2”.

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O longa de Theodore Melfi é um filme que convida a reflexão e ao questionamento dos quesitos superioridade/inferioridade  em relação a gênero e raça e nos possibilita questionar a nossa manipulação da realidade. E ainda, tem um roteiro muito bem amarrado em relação a abordar essas questões de forma precisa e ao mesmo tempo leve, sem marcar dores ou mágoas, mas visando a valorização da vitória sobre obstáculos de forma nobre, lembrando, mais uma vez, que é uma história real. “Estrelas Além do Tempo” é um bom catalisador para pensarmos a improcedência de qualquer tipo de preconceito.

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About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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