A Qualquer Custo

A Qualquer Custo (Hell or Hight Water) (Ação/Crime/Drama); Elenco: Ben Foster,  Chris Pine, Jeff Bridges, Gil Birmingham; Direção: David Mackenzie; USA, 2016. 102 Min.

Em tempos de premiações do cinema não há como não fazer referências a elas. Vindo de uma trajetória de prêmios – 36 ao total , até aqui – e indicado a 137 outros, incluindo aí a 4 Oscars – Melhores: filme, ator para Jeff Bridges, roteiro original e edição – “A Qualquer Custo” surpreende. Mais do que um filme de Western pós-moderno o longa é uma análise intencional do que não deu certo na expansão para o Oeste americano e um painel de que os instrumentos de ação continuam os mesmos dois séculos depois.

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Os irmãos Howard, Tanner (Ben Foster), recém-saído da prisão, e Toby (Chris Pine), responsável pelo rancho da família no Texas. Donos de uma propriedade cujo poço de petróleo no quintal secou e com uma hipoteca vultosa com o banco texano veem a estabilidade da família ameaçada. Para resolver esta questão decidem assaltar bancos em quantias pequenas e não seriadas para juntar dinheiro e pagar a hipoteca, além de fazer um ‘pé-de-meia’ para tempos difíceis. Atrás da dupla estão o xerife Marcus Hamilton (Jeff Bridges) e o mestiço Alberto Parker (Gil Birmingham) remontando uma perseguição de mocinho e bandido que trocam os cavalos por carros possantes; os arcos, flechas e garruchas por metralhadoras semi-automáticas e os comboios por carreatas.

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O diretor David Mackenzie de “O Encarcerado” (2013) e o roteirista Taylor Sheridan de “Sicário: Terra de Ninguém” (2015) traçam um painel que apresenta no que deu o expansão para o Oeste americano, mostrando que as relações de poder continuam as mesmas, só trocaram de mãos. Que os instrumentos de subversão e de repressão também não mudaram só ficaram mais precisos e violentos. E fazem tudo isso rendendo homenagens discretas aos grandes do cinema, principalmente a John Ford, através dos takes de empoderamento de paisagens do Novo Mexico nos remetendo ao Monument Valley, sua assinatura registrada em filmes de faroeste. As duas grandes referências – têm outras –  são “Jesse James” (1939) de Henry King e “Paixão dos Fortes” (1946) de John Ford.

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Se em “Jesse James” os irmãos Frank e Jesse (Henry Fonda/Tyrone Power) lutavam contra a desapropriação de seus ranchos pela ferrovia, em “A Qualquer Custo” os irmãos Howard, Tannes e Toby lutam para pagar a hipoteca de seu rancho ao Texas Midland Bank. Se em “Jesse James” o poder que se institui é o político em nome do progresso representado pela  ferrovia – e aí inclusa a matança de indígenas – em “A Qualque Custo” o poder instituído é o financeiro através dos bancos e os mestiços, agora, fazem parte do lado que defende a lei e a ordem.  Se no faroeste antigo os brancos tomavam as terras dos índios para se estabelecerem, em “A Qualquer Custo” os bancos tomam a terra dos brancos para se estabelecerem ( isso é dito por um mestiço). Se em “Jesse James” o poder da garrucha estava sendo substituído pelo da lei e da ordem, em “A Qualquer Custo” a lei e a ordem tentam sobreviver ‘selvagemente’ à desordem causada pelo ‘progresso’. O elo entre o  faroeste antigo e o pós-moderno é a transgressão. Essa continua a mesma e com razão de ser. Se os irmãos James para desacreditar a segurança da ferrovia e lhe causar prejuízos lhe impingiam assaltos, em “A Qualquer Custo” os irmãos Howard fazem com que os bancos paguem sua hipoteca, assaltando-os. Os links desse Western pós-moderno com os antigos são primorosos e dignos de aplausos.

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O longa de David Mackenzie é um filme de paralelos, com um roteiro original e remetências a obras antigas e à própria História dos EUA.  Com uma trilha sonora assinada por Nick Cave e Warren Elis o filme fecha redondinho e merece reverências. Afinal, não é qualquer filme americano com uma história de Western que consegue ser seleção oficial do Festival de Cannes concorrendo ao prêmio Un Certain regard, metaforicamente, invadindo a França. Filmado no Novo México, território inóspito e palco de tantas conquistas territoriais em cima dos indígenas e mantendo o argumento de manutenção das famílias, o longa tem atuações brilhantes, aí incluída a de Jeff Bridges de “Bravura Indômita” (2010) que ganhou reconhecimento das associações de críticos dos EUA de ponta a ponta, incluindo a Associação Nacional Americana  e de associações internacionais como as de Londres e Dublin. E ainda, com a participação muito importante de Gil Birmingham da saga crepúsculo, o Alberto Parker, parceiro policial do Xerife Marcus Hamilton que, com diálogos magistrais acerca da ancestralidade da região – ele, que é  um legítimo descendente comanche – tem em seu personagem aquele que dá o tom de conexão do passado com o presente naquela história.

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“A Qualquer Custo” é uma releitura política e econômica dos Estados Unidos da América, muito bem sucedida, usando artisticamente o que eles têm mais precioso, sua História. Genial!

About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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