Paraíso

Paraíso (Ray) (Drama); Elenco: Yuliya Vysotskaya, Philippe Duquesne, Christian Clauss; Direção: Andrei Konchalovskiy; Russia/Alemanha, 2016. 130 Min.

“Paraíso” foi o filme escolhido pela Russia a representa-la na corrida ao Oscar 2017, não chegou à final. Mas por conta disso alcançou um público bem maior que suas produções conterrâneas. O longa-metragem versa sobre a quebra dos arquétipos que criamos para criar imaginários sociais sobre fatos ambientados na Segunda Guerra Mundial. Um Francês que nem participou da resistência, nem fugiu com os demais. Ficou e serviu ao exército alemão. Um aristocrata alemão que é convidado a fazer uma auditoria dentro de exército de Hitler por suspeitas de corrupção e desvios. Uma princesa russa que vai parar nos campo de concentração, e lá nos deparamos com os desmandos de poder entre as presas. A abordagem de Andrei Konchalovsky é humana com registros de desvios posturais que desconstrói o que configuramos como imaginário social daquele evento e lugar. E nos presenteia com uma história densa e uma fotografia magnífica.

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Olga (Yuliya Visotskaya) é uma descendente da realeza russa que, estando em Paris na época da guerra, se alista na resistência e é presa por esconder crianças judias. Amiga de dinastas europeus, conheceu na Itália, em tempos áureos, Helmutt (Christian Clauss) que na guerra se tornou um alto oficial da SS. Este, tem por missão descobrir casos de corrupção, roubo de pertences de judeus dos cofres do Reich e desvios de comida e verbas para os campos. Jules (Philippe Duquesne) é um francês que se alia aos alemães na ocupação e tortura seus compatriotas e os envia presos aos campos de concentração. Esses três indivíduos são postos  em uma entrevista para que justifiquem sua entrada no paraíso. Com um argumento quase infantil – entrar ou não no ‘céu’ –  a roteirista Elena Kiseleva  de “The Postman’s White Nights” (2014) conta a história de vida de três indivíduos.E a partir de seus relatos, suas jornadas são conectadas umas às outras num passeio sórdido pela alma humana.

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Em Preto & Branco e com narrativas em primeira pessoa roteirista e diretor trazem para o espectador a dissonância. Aquilo que destoa do que sempre pensamos que sabíamos, que desconstrói nossas crenças.  O Francês que trai sua Pátria e seus conterrâneos e que, normalmente, não tem lugar nas abordagens. A exemplo dos filmes mais recentes “Diplomacia” (2014) e “Viva a França” (2016) em que o contexto é a invasão alemã à França e as abordagens são tradicionais e já esperadas ou conhecidas. Em “Paraíso” a abordagem é do que escapou. Se a noção que se tem da SS nazista é de um grupo extremamente competente e unido, isso cai por terra. “Paraíso” traz à luz a corrupção, os desmandos e a ‘trairagem’. Se a visão que se tem dos campos é de solidariedade “Paraíso” nos traz o clima de uma prisão cotidiana com moedas de troca e grupos que se protegem. O longa-metragem de Andrei Konchalovskiyde “A Odisseia” (1997) e figurinha carimbada nos Festivais de Cannes e Berlim nas décadas de 70 a 90,  trabalha com a sordidez humana, independente do ambiente, da posição social e do nível cultural.

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Com uma trilha sonora cheia de clássicos alemães, uma produção de designer da Europa da década de 40 assinada por Irina Ochina de “Tigre Branco” (2012) o longa abocanhou o Leão de Prata de melhor direção no Festival de Veneza; melhor fotografia no Gijón International Film Festival. Com uma abordagem corajosa a equipe foi feliz em conseguir trazer a aura desconfortável das dissonâncias, inclusive no desfecho. “Paraíso” é um filme forte que merece ser visto. E no que se fizer isso, entender porque o filme não fez o mesmo caminho que “Leviatã” de  Andrey Zvyagintsev fez no Oscar do ano passado. Merece ser conferido.

 

About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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