A Bela e a Fera

A Bela e a Fera (Beauty and the Beast) (Família/Fantasia/Musical); Elenco: Emma Watson, Dan Stevens, Luke Evans, Josh Gad, Kevin Klein, Ewan McGregor, Emma Thompson, Stabley Tucci, Ian  Mckellen; Direção: Bill Condon, 2017. 129 Min.

Nenhum conto de fadas é pueril. Independente da época em que foram criados o foram por seres humanos nos quais habita toda uma complexidade de aspectos. Nos mais ingênuos e, aparentemente, inofensivos contos de fadas há nuances fortes e potentes do paradoxo humano. Desde desvios de personalidade e fetiches à insinuações picantes para serem apropriados em outra idade, no avançar do discernimento. Talvez, por isso, as histórias mágicas não morram em nós, elas se reinventam com nova roupagem de acordo com o nosso nível de amadurecimento. O conto  “A Bela e a Fera” é o encontro do sensível e frágil com o bestial, no qual  por si só já contém uma tensão sexual envolvida, silenciosa e latente. A gama de possibilidades é a de que cada um descubra essa porção oposta de si no outro. E é esse o contexto misterioso da história pertencente à literatura francesa do século XVIII, mais precisamente 1740, e de autoria de Gabrielle Suzanne Barbot, a dama de Villeneuve.

Na versão de 2017, que é o live-action do desenho animado de 1991, a história original já foi picotada em seu alicerce. A Bella não tem irmãos e irmãs, e os tinha, a mágica das relações não existe, pois foi suprimida a parte da corça dourada e do deus da floresta para que fosse dada ênfase à relação da Bela e a Fera em si.  E a narrativa consiste basicamente em uma menina moderna, Bella (Emma Watson), que lê livros num vilarejo em pleno século XVIII (?!!), usa as pantalonas (roupas de baixo ) para fora da saia como as meninas de salloon e se recusa a casar com Gaston (Luke Evans). Que é um indivíduo inescrupuloso, cujo escudeiro gay LeFou (Josh Gad) o acompanha e aconselha nos momentos mais difíceis, inclusive no âmbito pessoal com piadas e tiradas subjetivas e bem específicas. Um belo dia o pai, Maurice (Kevin Klein) vai às compras e Bella pede uma rosa. Para atender seu pedido Maurice rouba uma rosa de um castelo abandonado que acabara de lhe servir de abrigo e é preso pela Fera (Dan Stevens). Ao tentar salva-lo, Bella fica em seu lugar, e a partir daí se dá o que já conhecemos há dois séculos. A questão é que além de mutilada, a versão da Disney se propõe a ser  a cópia fiel do seu antecessor em modalidade live-action e mais, ser uma espécie de porta-voz das bandeiras defendidas por Emma Watson sobre os direitos das minorias. E é aí que reside  a questão mais  gritante da adaptação de “A Bela e a Fera”, a contextualização. E isso merece uma atenção mais demorada.

Depois de tantas adaptações e variações de acordo com a mídia que a exibiria, a história pertencente à literatura francesa foi se diluindo em versões. Duas delas merecem referência, a de Jean Cocteau (1946) e de Christophe Gans (2014), seja porque são francesas e, portanto, fazem uma releitura da própria cultura literária com mais propriedade; seja porque foram mais fiéis  aos pilares de sustentação da história original. A questão que move as adaptações são as releituras e contextualizações e o que manter ou não do arcabouço original para não descaracterizar a obra. Até aí a ideia é boa. Porém, a questão de “A bela e a Fera” de Bill Condon é que as contextualizações são para ser compatíveis com as bandeiras defendidas por Emma Watson, e é feita sem a menor lógica. Por exemplo: a questão da representatividade étnica e de desconstrução da heteronormatividade ou ideologia de gênero são feitas para o século XXI no contexto do século XVIII e ficou fora da realidade, dissonante e pastelão. Negros na corte francesa de antes da revolução de 1789 povoando os salões e cantando ópera (?!), um gay que faz parte do clube de cavaleiros e é aceito com  suas piadas de ironia fina (?!). Sabemos que uma obra não tem, necessariamente, que retratar a realidade, muito principalmente, um conto de fadas cuja origem é a fantasia. Mas achar que isso é representatividade? Conceder a oportunidade a ‘minorias’ de se ver retratado de uma forma que nunca houve, postos numa obra à revelia de suas Histórias, só para dizer que estão lá? Inventar uma realidade para agradar como se fosse um favor? uma concessão misericordiosa?…. Essa questão dá panos para manga, como se diz na gíria popular, e suscita polêmica. Um bom exemplo de adaptação contextualizada de clássicos muito bem sucedida, acontecido recentemente, foi “Romeu e Julieta” de Kenneth Branagh, que foi adaptado para a década de 50 do século XX. Ali se misturou raça, tipos humanos: gay (o Mercutio de Derek Jacobi estava o máximo), velhas matronas, meninas despudoradas, donzelas recatadas, etc.. e  classes sociais diferentes, com um figurino atualizado, acontecimentos trazidos para o cotidiano de hoje, como barzinho, musica ao vivo e show noturno sem perder o fio da meada, deixando o viés sagrado do inglês rebuscado do William Shakespeare do século XVII e sua musicalidade intocados. No caso de “A Bela e a Fera” Bill Condon e os roteiristas Stephen Chbosky de “As Vantagens de Ser Invisível” (2012) e Evan Spiliopoulos de “Hércules” (2014) perderam a noção total e acabaram fazendo uma comédia pastelão que era para ser ‘modernona’ e que acabou no mesmo ‘clichezão’ do …e foram felizes para sempre’… Ou seja, onde podiam mexer não o fizeram.

E continuando ladeira  abaixo, a edição é assustadoramente cheia de buracos. Definitivamente não parece um filme da Disney que sempre primou por qualidade desde a época dos desenhos manuais. Por ser live-action – atores contracenando com realidade virtual – as interpretações são incipientes, isso para não falar da máscara da Fera que se compararmos com a versão de 1946, dá vexame. O longa de Jean-Cocteau deu um show na primeira metade do século XX, fazendo uma máscara de maquiagem, com  movimentos faciais de causar admiração pela criatividade e competência numa época de uma tecnologia rudimentar, em relação ao que temos hoje.  E a premissa que se apresenta como principal é justamente essa: a tecnologia. Onde temos todas as facilidades nossa criatividade míngua. Sobre as insinuações de liberdade feminina, o longa de Christophe Gans é muito mais eficiente em seus códigos. Vai para além de levantar a saia de Bella. Em pleno século XVIII, ele discute prazer e satisfação sexual à mesa. Léa Seydoux , a Bella daquela versão, é posta numa condição de poder e liberdade, pasmem, estando presa. Isso tudo  sem apelar para clichês e  com muita classe e propriedade, onde o viés foi a sutileza.

Beauty and the Beast (2017)
Emma Watson as Belle and Dan Stevens as Beast

E o que temos como resultado no live-action de Bil Condon é um filme com a cara do desenho de 1991 que não acrescenta nada de novo em relação a plasticidade, mesmo mudando de modalidade. E o que tenta acrescentar em relação à contextualização traz estranhamento, para não dizer constrangimento, pelo nível de subestimação da inteligência do espectador. E, mais, apesar da classificação indicativa estar para 10 anos, as tiradas subjetivas de ironia fina de LeFou chama um público com o desenvolvimento cognitivo acima de 12 anos. Ou seja,  ” A Bela e Fera” versão 2017 é uma piada com direito a gratas gargalhadas, que não faltarão. Para definir o longa numa frase: o filme de Bill Condon é um live-action com uma propaganda muito bem feita e com selo de qualidade Emma Watson.

About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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