Bingo – O Rei das Manhães

Bingo: O Rei das Manhãs (Bingo – The King of the Mornings) (Drama); Elenco: Vladimir Brichta, Augusto Madeira, Raul Barreto, Leandra Leal, Pedro Bial, Emanuelle Araujo; Direção: Daniel Rezende; Brasil, 2017. 113 Min.

Toda história merece ser contada. O que as valoriza, além de seus contextos, é a forma com a qual são abordadas. “Bingo: O Rei das Manhãs” tem, dentre suas primorosidades, a abordagem. Essa é de um viés pessoal, cotidiano onde não se fala de nobrezas. Não que elas não houvessem, mas o viés escolhido é daquilo que se esconde, daquilo que é envernizado pela hipocrisia social, como se todos nós fôssemos anjos de luz. E essa alusão cai como uma luva na metáfora da máscara do palhaço. No longa metragem roteirizado por Luiz Bolognesi o que é revelado é o que todos nós somos, seres humanos desejosos de reconhecimento e o quanto isso influencia nossa vida.

“Bingo: O Rei das Manhãs” é a cinebiografia de Arlindo Barreto, um dos intérpretes do palhaço Bozo, que fez sucesso na década de 80, exibido pela emissora de TV SBT. Com um contrato que o impedia de se identificar como o personagem que interpretava todas as manhãs, proibido de aparecer sem a máscara/maquiagem de palhaço, Augusto Mendes (Vladimir Brichta) embarca numa onda de revolta pessoal e necessidade de reconhecimento que desemboca no consumo de drogas, inclusive nos bastidores das gravações do programa infanto-juvenil. Os nomes foram substituídos por motivos óbvios: evitar processos e ações judiciais. Tecnicamente o longa dirigido por Daniel Rezende é a filmagem das filmagens do programa de televisão que colocou em xeque a audiência da rainha dos baixinhos e que acirrou a competitividade entre as duas emissoras pela entrada nos lares brasileiros e pelo consumo de milhões de reais em merchandising e produtos da marca dos ícones infantis.

A forma que Bolognesi, Rezende e Hashimoto (editor) escolheram para contar essa história conecta aquilo que destoa da imagem de um ícone infantil com a realidade da fama, a necessidade de reconhecimento de um artista e seu papel de pai, numa pegada inteligente que tem como viés a personalidade irreverente de Arlindo Barreto. E no cinema essa fôrma na qual uma história tem que se encaixar para ser bem contada junta as três camadas: roteiro, direção e edição. Cada função tem que se encaixar harmonicamente com um só objetivo: fechar com abordagem escolhida. Neste caso o nascedouro foi o roteiro de Luiz Bolognesi. Roteirista competente conhecido por “O Bicho de Sete Cabeças” (2000) pelo qual ganhou o grande prêmio do Cinema Brasil; e “Uma História de Amor e Fúria” (2013) que é um compêndio da História do Brasil com uma pegada espiritualizada, numa animação que ousou técnica nova e genuinamente brasileira e que merece ser vista; também Laureado com o Candango do Festival de Brasília por “Chega de Saudade” (2007) e “Querô” (2007) e com o troféu da Associação Paulista de Críticos de Arte por “As Melhores Coisas do Mundo” (2010), ele deu uma abordagem visceral e dissonante mostrando a alma do homem por trás da máscara. A direção de Daniel Rezende, indicado ao Oscar na categoria de edição por “Cidade de Deus” (2002), foi primorosa no que concerne a orientação a Vladimir Brichta, que está simplesmente magnífico. Daniel Rezende tem em “Bingo: O Rei das Manhãs” seu primeiro longa-metragem para o cinema  foi corajoso estreando com uma história polêmica. Não esquecendo da fotografia primorosa de Lula Carvalho de “Tropa de Elite I e II” (2007/2010) e “As Tartarugas Ninja” (2014/2016). Para fechar os aspectos técnicos a edição de Marcio Hashimoto de “O Filme da Minha Vida” (2013) arrematou com chave de ouro.

Querendo ou não, o que se vê em “Bingo: O Rei das Manhãs” já faz parte da História da Televisão Brasileira tanto pela disputa de audiência com uma das mais poderosas emissoras de TV da América Latina como pela inusitariedade e ousadia de Arlindo Barreto. A história pode ser até rampeira sem rompantes de nobrezas e superações como costumamos ver, mas é para lá de original, sui generis e ninguém pode negar que tem o DNA brasileiro. Sem contar que é uma viagem muito louca à mentalidade dos anos 80 em que nem percebíamos que admitíamos tudo com naturalidade. Em suma, “Bingo: O Rei das Manhãs” é uma produção competente e primorosa e…é do Brasil e sobre o Brasil.

About Sonia Rocha

Crítica Cinematográfica, Professora de Filosofia e História, Mestre em Educação (UERJ) e Pesquisadora de Cinema e Educação.
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