Dolores – Uma Mulher, Dois Amores

Dolores: Uma Mulher, Dois Amores (Dolores) (Drama/História/Romance); Elenco: Emilia Attias, Roberto Birindelli, Guilhermo Pfening, Jandir Ferrari, Mara Bestelli; Direção: Juan Dickinson; Argentina/Brasil, 2016. 90 Min.

Produção argentina em parceria com o Brasil “Dolores: Uma Mulher, Dois Amores” conta a história de uma mulher à frente de seu tempo. Contextualizada na década de 40, em plena Segunda Guerra mundial, com os pés fincados nos pampas argentinos e a alma em suas ascendências de origem, o longa dirigido por Juan Dickinson faz analogia da guerra com o esfacelamento pessoal da família Hillary. E ainda situa historicamente o período anterior ao peronismo naquele país.

Dolores (Emília Dickinson) volta a Argentina para se solidarizar à família pela morte de sua irmã e dar apoio ao sobrinho de 9 anos. Nesse ínterim, se apaixona pelo cunhado, resolve querelas financeiras e se encanta por outro homem, Otávio (Roberto Birindelli). A época é o início da década de 40, o contexto: uma sociedade rural e moralista. O longa é um passeio de memória do sobrinho e que traz memórias históricas da Argentina para o seu viés. As atuações são tímidas e contidas, e é proposital, pois o primeiro nipe de atores são experientes e atuam em teatro, cinema e televisão. Logo, a distância, a sisudez, o insípido do gesto é da época e faz parte da história numa metáfora, possivelmente, relativa ao tempo histórico.

a história é do diretor Juan Dickinson, o roteiro dela ficou por conta de Roberto Scheuer de “Sotto Voce” (1996). A trilha sonora é do nosso Léo Gandelman e se destaca. Mas o que merece um olhar mais demorado é a direção de arte de Lucia Saravia, Danilo Furlano e  Merlinda Molina que são os responsáveis pelo transporte no tempo. Nos põe direto na década de 40 sem escalas.

“Dolores: Uma Mulher, Dois Amores” é tímido em sua transmissão. Seja por causa do período, seja pela opção classuda de abordagem, que está muito bem desenhado no figurino citadino e europeu, mesmo que a história se passe no campo. “Dolores” (no original) é um filme para poucos olhos e seleciona público em suas conexões comportamentais e históricas. Em suma, mais uma produção Brasil/Argentina, só que, em espanhol e esbanjando classe e sofisticação.

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Cães Selvagens

Cães Selvagens (Dog Eat Dog) (Crime/Drama/Thriller); Elenco: Nicolas Cage, Willem Dafoe, Christopher Matthew Cook; Direção: Paul Schrader; USA, 2016. 93 Min.

Roteirista de “Taxi Drive” (1976) e “Touro Indomável” (1980), Paul Schrader ataca de analista de personalidades desviantes, versando sobre o conceito de amizade no contexto do crime ‘desorganizado’ gerando risos e espanto, tudo ao mesmo tempo.

Três amigos completamente amorais, cujo vínculo se deu pelo violência e redução de pena no sistema prisional (gerando conexões por dívida) se juntam para tentar sobreviver e montam uma quadrilha para cometer pequenos delitos. O primeiro é Mad Dog (Willem Dafoe), um indivíduo sem nenhum controle ou senso moral. O segundo é Diesel (Christopher Matthew Cook), um cara fechadão que tem alguns parâmetros comportamentais dos quais não abre mão. Mas é psicótico. O terceiro é Troy (Nicolas Cage), o mais perto do que se poderia chamar de ‘normal’, portanto, o líder. Mas, quando liga no modo automático, não tem freios. Essa trinca vai lidar com situações cotidianas no mundo do crime e seus equívocos. Tudo isso numa obra em que Schrader usa takes de ação no estilo Luc Besson e outros de cunho reflexivo e lisérgicos à la David Lynch. Os referenciais são vários, mas destaco três: “Trainsnpotting” (1996), “Estrada Perdida” (1997) e “Dog Eat Dog” (2008) de Carlos Moreno.

Paul Schrader diretor de “gigolô Americano” (1980) mistura aspectos opostos como: realidade/fantasia; violência/compaixão; solidariedade/traição numa história bem bipolar que habita o limbo da lógica. A história é baseada no livro de Edward Bunker (1933-2005). Contando  com a participação de Willem Dafoe de “Pasolini ” (2017) o longa contém variantes muito loucas de abordagem comportamental. Lembra um pouco “Vício Inerente” (2014). As tecnicalidades como fotografia e roteiro ficaram com os iniciantes Alexander Dynan e Matthew Wilder. E a música com o comercial Deantoni Parks de “Plano B” (2010) que mandou muito bem. E ainda tem Nicolas Cage (para quem é fã). Paul Schrader aparece como a personagem El Greco.

Em suma, não é uma obra-prima mas é divertido e faz pensar. Quem disse que o lastro da existência é o nosso? Com bastante violência e alguma graça e por vezes, uma exígua compaixão “Cães Selvagens” brinca com os temas: psicopatia, sociopatia e esquizofrenia, enfim, com o dissonante. Com isso a classificação indicativa subiu para 16 anos. Para quem gosta da ‘vibe’ é uma boa pedida.

 

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A Cabana

A Cabana (The Shack) (Drama/Fantasia); Elenco: Sam Worthington, Octavia Spencer, Alice Braga, Graham Greene; Direção: Stuart Hazeldine; USA, 2017. 132 Min.

“A Cabana” é uma adaptação do livro homônimo do escritor William P. Young lançado em 2007, e se trata de uma história com viés espiritualista que aborda o processo de consolidação da fé religiosa do indivíduo, o perdão, os caminhos do julgamento do outro e o equilíbrio entre vida espiritual e matéria.

Mack (Sam Worthington) é um pacato pai de família que num piquenique  tem a filha menor, Missy (Amélie Eve) sequestrada e morta. Em revolta e em recolhimento, Mack um dia recebe um bilhete convidando-o a ir até a cabana em que sua filha tem sido morta. Inquieto, Mack parte para sua experiência espiritual. O filme é evangelizador, mas sem dogmas doutrinários. Prima pela exposição dos valores cristãos,  e sua forma de fazê-lo é sucinta, didática e, por vezes,  engraçada. Não deixa de ser contundente, quando Mack se depara com a sabedoria (Alice Braga) e com Male Papa (Graham Greene). Mas, no geral, é de fácil digestão. Apesar de postular a existência de um mundo espiritual, também abre caminho para tudo noção ter passado de um delírio e essa pegada, amplia público.

Mas a cereja do bolo ficou com as apresentações de deus e da santíssima trindade. O cuidado com que os roteiristas (John Fusco/”Hidalgo”; Destin Daniel Cretton/”Temporário 12″ e Andrew Laham) e o diretor Stuart Hazeldine retrataram deus é genial. Nas coisa mais amenas e educativas: um doce mulher negra (Octávia Spencer) e nas mais dolorosas, um índio. Para completar a santíssima trindade uma japonesa (Sumide Matsubara) e um israelita de ascendência norte-africana (Avraham Avuv Alush) numa metáfora sobre ‘diversidade una’ (se é que isso existe) bastante inteligente. Sobre Stuart Hazeldine e sua equipe, não são conhecidos e premiados mas deram conta do recado. Os destaques vão para a fotografia de Declan Quinn de “A Ressaca 2” (2015) e suas metáforas imagéticas simples e poéticas. E a Música de Aaron Zigman de “Diário de uma Paixão” (2004).

“A Cabana” é um filme linear, didático, com valores morais e religiosos que se proposita a isso, e o faz bem. Obviamente, é para um público que partilha dessa realidade e desse nicho de vivência, mas a mensagem é universal e num momento político mundial conturbado como o nosso, está valendo e cai como uma luva.

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Coletiva de Imprensa com Octavia Spencer

Octavia Spencer: coletiva de imprensa pelo lançamento do filme “A Cabana”

No último dia 27, numa tarde nublada na orla do Rio de Janeiro, Octavia Spencer, atriz oscarizada por “Estrelas além do Tempo”  recebeu a imprensa especializada para uma conversa sobre o filme “A Cabana” no qual ela protagoniza juntamente com Sam Worthington. Numa conversa formal, como era de se esperar numa entrevista internacional, Octavia respondeu a questões a cerca da mensagem do filme, sobre fé, sobre seu preparo para fazer a personagem, ninguém menos, que deus. E outras questões pertinentes ao filme.

Quanto ao preparo para fazer uma personagem tão importante e de uma forma tão inusitada octávia respondeu que leu o livro, ganhou outros de seu diretor e teve a orientação de um pastor amigo seu que ajudou a conhecer mais a doutrina cristã. Quanto a sua motivação foi transmitir parte do que sentiu lendo o livro e teve inspirações maternas para fazer o papel, o fez a partir das características do amor de uma mãe.

Sobre as expectativas sobre a ação da mensagem num momento mundial tão conturbado, Octávia disse que violência e ódio sempre existiram no mundo, mas há um lado que deve ser buscado, que é o do bem. E que se o filme ajudar a promover esse autoexame e oferecer a cura nesse sentido que ela ficaria feliz.

Acerca da influência do filme em sua vida, ela disse que vive sua vida sendo a mesma pessoa, e que no cotidiano faz ao outro o que gostaria que lhe fizessem. Disse que com a experiencia do filme amadureceu espiritualmente, mas não radicalmente, apenas o suficiente. Disse ainda que acredita em Deus, faz sua meditação cotidiana e se considera cristã. Mas é diferente se preparar para encarnar um papel tão forte. Ali estava a serviço do papel e o encarou como se fosse o de uma mãe.

Na seara dos questionamentos religiosos feitos por Missy (Amélie Eve), a menininha, Octavia disse que esse é um dos aspectos bonitos sobre a história, o de como uma menina levanta as questões , dá as respostas e não julga. O quanto ela é sempre curiosa e voltada para o amor. Então, o livro e o filme trazem perguntas,  e respostas também. “A Cabana” é uma bela história sobre julgamento das pessoas.

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Galeria F

Galeria F (Documentário/Biografia/Drama); Participação: Teodomiro Romeiro dos Santos; Direção: Emília Silveira; Brasil, 2017. 83 Min.

Teodomiro Romeiro dos Santos foi um preso político à época da ditadura militar brasileira que, condenado à pena de morte e posteriormente à prisão perpétua protagonizou uma fuga mostrando a fragilidade do sistema prisional em pleno regime mão de ferro. 47 anos depois a cineasta Emília Siveira de “Setenta” (2013) conta a história desse homem, ou melhor, empunha uma cãmera para que ele mesmo o faça. Feito esse que merece ser visto e ‘re-visto’.

O documentário é um passeio, em tom de intimidade, pelos anos de chumbo, pelo martírio que passou Teodomiro,  e de sua fuga desesperadora. O Longa percorre o  mesmo caminho feito por Teodomiro em 1979 quando fugiu da Penitenciária Lemos de Brito na Bahia. Relatado pelo, admiravelmente lúcido, senhor da história, em tom de roda de conversa e ao lado do filho, a narrativa revira o baú maldito da ditadura e escarafuncha episódios e dores. O longa-metragem conta, também, com recortes dos jornais escritos da época e imagens de arquivo dos telejornais.

Não é a primeira vez que a cineasta Emília Silveira aborda a época da ditadura em seus trabalhos. Em 2013 ela dirigiu “Setenta” um documentário no qual constam relatos de experiência de torturados políticos do mesmo período histórico. Uma das características do trabalho de Emília é deixar o convidado à vontade com liberdade para narrar e expressar-se. A cena em que Teodomiro anda de um lado para o outro na cela em que outrora esteve preso é quase que um transporte no tempo e no espaço, percebe-se a ausência momentânea de Teodomiro. “Galeria F” consegue transmitir a sensação de claustrofobia e de liberdade. Os filmes de Emília Silveira são de manutenção de memória, mas não só de memória histórica, mas de memória cotidiana. Aquela que tem que ser fustigada para não deixar esquecer. Outra característica interessante de “Galeria F” é que é roteirizado, produzido e editado por mulheres: Margarida Autran, Juliana Domingos e Joana Collier, respectivamente. Talvez por isso esse caminhar sensível, lento  e expurgador de dores.

“Galeria F” nos mostra o quanto a resiliência é importante. “Galeria F” nos diz que ninguém faz do outro o que quer. “Galeria F” grita que a força da vida está com o que fazemos com aquilo que fazem conosco. O longa é um documentário para assistir se sentindo participante da roda de conversas. Para a nova geração então, é obrigatório e absolutamente necessário.

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Memória em Verde e Rosa

Memória em Verde e Rosa ( Documentário); participações: Carlinhos do Pandeiro, Jorge Catacumba, Nelson Sargento, Delegado, Cininha, Cici, Guezinha, tantinho da Mangueira; Direção: Pedro Von Krüger; Brasil, 2016. 80 min.

Bem diferente do documentário “82 Minutos” em que o recorte analisado era um desfile dda Escola de Samba no Carnaval do Rio , o longa-metragem de Pedro Von Krüger vai mais longe e conta a história dos ícones da Escola de Samba Mangueira misturado ao cotidiano da comunidade. A linha que costura esses aspectos é o samba como composição e ritmo, como veículo de ‘contação’ daquelas histórias e como caracterizador cultural daquele espaço. Fazem parte desse acervo de memória sambistas que tinham o samba na ponta do lápis, da língua, do pé e no coração. As vedetes são os compositores da velha guarda e quem afina a conversa é Nelson Sargento, Jorge Catacumba, Carlinhos do Pandeiro, Delegado e Tantinho da Mangueira.

“Memória em Verde e Rosa” é um documentário que traz em sua narrativa uma história que explica o jeito da mangueira desfilar. O zigue-zague na avenida vem do caminhar dos moradores com latas d’agua na cabeça ao subir o morro. As narrativas são eivadas de códigos que se caracterizam como marcas da história da comunidade em seu fazer cotidiano, são histórias e costumes culturais muito bem articulados. Traz Cartola, D. Zica, e D. Neuma como fantasmas benfazejos que são a marca registrada  da Mangueira, numa costura poética muito bonita. Mas, a maestria não está no registro da memória e sim na analogia competente em mostrar o que era uma escola de samba há quarenta anos atrás e o que é hoje.O que era o samba e o que é hoje. O que era o carnaval e o que é hoje: uma industria sem nenhuma tradição. E diz tudo isso de forma lenta, natural, cuja narrativa vai desenhando essa metamorfose. Uma metáfora de como essa mudança aconteceu de forma  gradual e imperceptível, e agora,  irreversível.

Memória em Verde e Rosa” é um relato de experiência de vida que lembra o passado e preserva a História. E poeticamente, é uma digital de alma sobre como se sente o homem comum – na escrita do samba –  sobre sua forma de ver a vida e como a interpreta. Tudo isso vindo de gente do povo sem grande formação acadêmica. É de uma conexão com o conotativo muito especial. Ali estão registradas suas realidades, seus modos de ver e sentir.

Quanto a Pedro Von Krüger com esse nome alemão é  baiano de Salvador e dirigiu “Pulmão da Arquibancada” (2012). E aí está explicada a ginga com a câmera e com o roteiro de Alípio do Carmo. A edição assinada por Marília Moraes  de “Maresia” também mandou muito bem com os recortes e colagens da entrevistas que trançaram essa rede de assuntos. O documentário sobre uma das mais tradicionais, senão a mais tradicional, Escola de Samba do Rio de Janeiro é preservação de memória. E é melhor registrar mesmo antes que o capitalismo selvagem acabe com tudo. Já que é inevitável, que pelo menos se use a oportunidade para contar uma bela história e mostrar uma vida rica de subjetividades. Vale o ingresso!

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A Glória e a Graça

A Glória e a Graça (Glory and Grace) (Drama/Família); Elenco: Carolina Ferraz, Sandra Corveloni, Carol Marra, Vincent Kato, Sofia Marques; Direção: Flávio Tambellini; Brasil, 2017. 94  Min.

Estrelada por Carolina Ferraz a produção nacional “A Glória e a Graça” conta a história de reconciliação entre duas irmãs. É um filme que traz o cotidiano de uma família, como qualquer outra, um drama que em seu contexto insere questões de gênero. O viés da abordagem é a humanidade e não o preconceito ou a marginalidade.

Graça (Sandra Corveloni), mulher liberada que cria os filhos sozinha, numa consulta médica de rotina descobre um problema grave de saúde que é definitivo. Então precisa organizar a vida dos filhos. Decide procurar o irmão Luiz Carlos para ajuda-la. Depois de quinze anos de ausência Graça encontra no lugar de Luiz Carlos, Glória (Carolina Ferraz). E a história está montada, com todas as questões previsíveis: a surpresa da irmã, o estranhamento dos sobrinhos, as questões familiares de reconciliação e resgate de equívocos do passado e a adoção de crianças por parte de um tio/tia travesti. O enredo é bem costurado, passa raspando nas polêmicas e não aprofunda e nem teve isso como objetivo.

Os roteiristas Mikael Albuquerque e Lusa Silvestre misturaram questões enfatizando os aspectos familiares, na periferia é que a abordagem do diferente e da dissonância se dá. A trilha sonora assinada por Pedro Tambellini de “Mae só há uma” ajudou na ênfase ao drama e a fotografia de Gustavo Hadba de “La Vingança” compõem o quadro fechando bemas tecnicalidades.

“A Glória e a Graça” é um filme simples, sem grandes metáforas ou diversidade de nuances, mas que tem a competência de trazer à luz para o grande público a naturalização da diferença, a naturalização das discussões das questões de gênero em família. E mais, com afeto. A humanidade de Glória é propositalmente superior a toda uma carga estereotipada criada para discriminar. O roteiro fechou redondo e as atuações também. É programa de família!

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