Liga da Justiça

Liga da Justiça (Justice League) (Ação/Aventura/Fantasia); Elenco: Ben Affleck, Henry Cavill, Amy Adams, Gal Gadot, Ezra Miller, Jason Momoa, Ray Fisher, Jeremy Irons, Diane Lane, JK Simmons; Direção: Zack Snyder; USA/Reino Unido/Canadá, 2017. 120 Min.

Com uma bilheteria pífia em casa (EUA) ficando atrás de “O Homem de Aço”, “Batman vs Superman”, “Esquadrão Suicida” e “Mulher Maravilha”; “Liga da Justiça”, no Brasil, fez sucesso na primeira semana de exibição. Sendo um filme do Universo estendido da D.C e totalmente ancorado nas HQs de Gardner Fox, o grupo de justiceiros já foi/é animação e agora, depois de devidamente apresentados nos filmes individuais de seus heróis que vêm sendo exibidos desde 2013 em doses homeopáticas, chegou a hora de juntar todo mundo e apresentar  Cyborg e sua origem, Aquaman e Flash. E ainda, o motivo pelo qual foi necessária  a junção de forças: a morte do Superman e o enfrentamento do Lobo da Estepe  (Ciarán Hinds) e seu exército de parademônios na perseguição às caixas maternas. A questão é que, os links que conectaram Lex Luthor e a tecnologia alienígena – a das caixas maternas – dadas em “Batman vs Superman” ficaram no vácuo e só serão retomadas em “Liga da Justiça II”. Ou seja, todo limbo em que ficou boiando  “Batman vs Superman” esperando se conectar à  “Liga da Justiça”  foi em vão, porque “Liga da Justiça” entra em  outro limbo esperando por “Liga da Justiça II”. Além de pular etapas e inserir logo de cara as caixas maternas, com a desculpa de contar a origem de Cyborg. As caixas maternas, que são o nirvana da saga, são jogadas no meio da história, quando na ‘realidade’ seriam o final.  Quem acompanha as HQs sabe que caixa materna e o arco “Darkseid War” é muito mais do que um álibi para apresentar uma personagem. O que sobrou, então, para analisar? O quanto a visualidade, a tatibilidade, as atuações e as tecnicalidades se aproximam ou se distanciam do espectador/leitor de quadrinhos do Universo D.C, ou seja, analisar o trabalho da direção geral, da direção de fotografia e da direção de arte. Então, vamos lá!

A inspiração dos filmes da D.C são as HQs “Novos 52”. Nos quadrinhos, a Liga da Justiça aparece pela primeira vez em 1960 criada por Gardner Fox  em “The Brave and the Bold #28. Seu principal vilão é Darseid, criado por Jack Kirby em 1970. Depois que Ragnarok  dizimou as antigas divindades, os deuses se dividiram, os do bem são do planeta Nova Gênesis e, os do mal de Apokolips e vivem sob a égide da tirania de Darkseid. As caixas maternas são criadas por esses deuses da 4ª dimensão e são organismos tecnológicos vivos, autogestores, que têm consciência própria, dão poder a seus donos, os trata como filhos, recupera-os fisicamente, possibilita teletransporte, manipulação energética e tal. Esse contexto todo foi trazido para o contexto da Liga da Justiça para conectar Cyborg (Ray Fisher) à trama, que é um humano reconstituído pelo poder da caixa materna da humanidade. São três ao total: a amazona, entregue as guerreiras de Themyscira – galera da Mulher Maravilha (Gal Gadot) – a de Atlantis, sob a guarda de Aquaman (Jason Momoa) e a outra a humanidade sob os cuidados do cientista Silas Stone (Joe Morton) pai de Cyborg. A partir daí o Lobo da Estepe, tenta sequestrar as três caixas e a aventura se inicia apresentando as habilidades de cada um dos heróis, a origem de Cyborg e a cooptação de Flash (Ezra Miller) e muita ação.

A questão é que essa história é a maior  e mais poderosa do arco “Darkseid War”, ela seria uma espécie de história final e jamais história inicial. O espectador que vai comer pipoca e não tem conexão com as HQs vai sair feliz, mas quem é Nerd sai meio decepcionado. Dos três poderosos  deuses nepotistas de Apokolips, cuja personagem central é o todo poderoso Darkseid, temos: Lobo da estepe, tio de Darkseid e líder de um exército; Yuga Khan, o pai de Darkseid e Metron que é o mais desconectado da trinca e é um deus novo com capacidade de comunicação com outros povos e, que atravessa espaço e tempo. E que era uma excelente pedida para fazer a primeira aventura do universo estendido D.C; ou dar continuidade ao link do Lex Luthor com as tecnologias alienígenas. Zack Snyder (“O Homem de Aço”/ “Batman vs Superman”) tem estado a frente da maioria dos projetos da D.C para o cinema, e tem um excelente cabedal. Obviamente, sabe o que faz, mas as expectativas de quem conhece as histórias, infelizmente, são altas. Com histórias que têm personagens criados a tanto tempo e que fazem parte daquele universo de forma tradicional, é natural que as versões cinematográficas sejam uma compilação do que se consegue captar com maior ou menor competência, a essência das personagem, os arco de suas histórias, e dar diferentes importâncias a diferentes episódios, além do fator contemporanização.  Zack Snyder, Christopher Nolan (trilogia Batman), Martin Campbel (Lanterna Verde) e os diretores das animações da Liga da Justiça: Dave Billock (Liga da Justiça Nova Fronteira/2008); Sam Liu e Lauren Montgomery (Liga da Justiça: Crise em duas terras/2010 ; Liga da Justiça: A Legião do Mal/2012; Liga da Justiça: Deuses e Monstros/2015; Liga da Justiça Sombria/2017) Jay Oliva e Ethan Spauldin (Liga da Justiça: Trono de Atlantis/2015) são todos olhos e mentes que trouxeram para o publico suas visões contextualizadas desses heróis. Ou seja, não tem fórmula, tem criatividade, captação do que seja padrão na percepção do espectador e que possa ser aprofundado para continuar cativando público e angariando mais fãs e admiradores, quem faz isso com competência ganha audiência e bilheteria.

O que resta para analisar de “Liga da Justiça” de Zach Snyder é a fotografia eivada  de CGI, como era de se esperar, de Fabian Wagner de “Game of Thrones”, o design de produção, assinado por Patrick Tatopoulos de “Independence Day” (1996) e a participação sensacional de Ezra Miller de “Precisamos Falar Sobre Kevin” (2011), como Flash. Atuação essa que desopila o fígado de tanta ação, dá um pouco de graça e puxa um pouco para o lado Marvel de ser. Mas, independente do vilão escolhido para dar o ponta-pé inicial à saga da Liga Justiça no cinema, se ninguém gritou Martha nem comeu sushi na frente do Aquaman, já está valendo.

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Human Flow – Não Existe Lar se Não Há para Onde Ir

Human Flow: Não Existe Lar se Não Há para Onde Ir ( Human Flow) (Documentário); Participações: Peter Bouckaert,  Filippo Grandi, Princesa  Dana Firas (jordânia); Direção: Ai Weiwei; Alemanha, 2017. 140 Min.

“Quando vemos o planeta no espaço vemos um povo, irmãos que moram no mesmo lugar, que tem suas culturas, costumes, religiões; mas, basicamente, seres humanos irmãos. Mas, existem pessoas más na terra. Elas sim, deveriam ir para o espaço”

(Mohammed Faser – astronauta sírio aposentado)

Introdução

O documentário “Human Flow” – fluxo humano em tradução livre – merece muito mais do que uma simples crítica cinematográfica. A obra do artista, ativista e cineasta chinês Ai Weiwei é uma amostra da utilidade do cinema, não só como um grande veículo de massa, mas como uma grande ágora que fomenta assuntos em voga, seja incômodos, polêmicos, artísiticos, políticos ou econômicos. Mostra a liberdade poderosa desse espaço de mostragem de ideias que, literalmente, não tem fronteiras. O documentário de Weiwei faz uma coletânea de um ano de capturas imagéticas de refugiados por 23 países e 40 campos de refúgiados políticos através das câmeras de 12 cinegrafistas com instrumentos mistos, desde o celular, passando por câmeras de mão ou profissionais de alta tecnologia a drones. O cineasta chinês vai da fronteira dos EUA com o México à Gaza, percorre o mundo inteiro registrando movimentos de migração, conceitua a palavra refugiado de acordo com os parâmetros das Nações Unidas e União Europeia e suas legislações sobre o assunto, e pontua suas questões atravessadas por trechos de poesias de escritores sírios, curdos e turcos. Entrevista ativistas, refugiados, autoridades oficiais: o primeiro ministro grego, a princesa da jordânia; além de pontuar com manchetes dos principais veículos de comunicação do mundo: Der Speigel,  Die Zeit, The Guardian, Telegraph, The Washington Post, Time Magazine, etc. E põe esses instrumentos a seu dispor para nos apresentar de forma humana e, não somente política, a realidade de quem não tem mais lar, pátria, identidade coletiva, cultural e, quiçá, pessoal.

O documentário alemão dirigido por um chinês remonta os movimentos de migração desde os africanos há 140 mil anos, no aspecto antropológico, até os os mais recentes através de uma narrativa doce que naturaliza o movimento, mas não suas causas. Se detém nos mais recentes tendo como referencial a 2ª Guerra Mundial e as legislações referentes à situação e do conceito de refugiado, redigida desde então, e aponta as contradições ao longo dos procedimentos que são realizados em diversos países em relação aos preceitos vigidos por essas leis. Quando de exilado político o indivíduo passa a condição de detido disfarçado de protegido. Weiwei vai da América ao Oriente Médio, da humanidade ao uso político da situação, do registro da dor à demonstração de respeito e afeto por essas pessoas, numa jornada cinematográfica de duas horas e vinte minutos.

 

 

O cerne da questão e as metáforas de Weiwei

“Sou este mar, mas cheguei aqui numa tigela”

O documentário foi roteirizado por três pessoas, a artista Chin-Chin Yap, o jornalista do The guardian e diretor de comunicação do conselho de refugiados e cabeça dos assuntos referentes a migração no Institute  for Public Policy Research e Boris Cheshirkov do alto comissariado das Nações Unidas para os Refugiados. Com todo esse cabedal no assunto, a abordagem é, no mínimo, competente.

As metáforas que comparam esse movimento ao  das formigas e seus percursos são belíssimas, com takes realizados a partir de drones. E a abordagem regada a afeto e respeito são dignos de menção. Com destaques para duas cenas tocantes: a de Weiwei tentando consolar uma muçulmana que não se contém ao relatar sua história, de costas para a câmera e; a do cineasta trocando seu passaporte com o de um sírio, com a frase: “Eu te respeito”. Esse registro de intromissão num momento de tanta fragilidade é muito bem cuidado no documentário.

Outro aspecto importante no longa, é que ele não se detém na dor daqueles povos, mas alicerça as suas identidades culturais através dos escritos de seus poetas. Os refugiados são pessoas que, para além de suas necessidades proeminentes, pensam sobre suas questões e situações e fazem seu registro com docilidade, inteligencia e licença poética. Os refugiados não são somente boca, estômago e intestinos; não são uma bomba de responsabilidade civil e política, são seres pensantes inseridos em uma cultura, logo são um pedaço dela espalhados pelo mundo, têm alma. E a escrita desses poetas trazem a essência daqueles povos à obra cinematográfica, dando provas do cuidado e zelo da produção.

Dentro desse contexto de diferenças culturais, de caldeirão de misturas temos uma dúzia de olhares. Foram 12 cinegrafistas que fizeram a direção de fotografia, dentre eles o próprio Weiwei. Falamos de profissionais como o australiano Christopher Doyle de “Poesia sem Fim” (2016), o grego Koukoulis Konstantinos de  “Man at Home” (2017), o Belga Renaat Lambeets de “Tempo of Restless Soul” (2009), o chinês  Zanbo Zhang de “The Road” (2015) entre outros. Ai Weiwei é um artista plástico, designer arquitetônico, ativista social e cineasta. Hoje residente na Alemanha e conhecido pela trilogia “Beijing” (2003/2004/2005), cujo ativismo lhe rendeu problemas sérios na china. Aqui, juntamente com o músico dinamarquês Karsten Fundal de “The Last Man of Aleppo” (2017)  mais conhecido por “Os Desajustados” (2015) e com os editores:  “Nils Pagh Andersen de “O peso do Silêncio” (2012) e Martin Hoffmann de “18” (2014) o trabalho foi içado à condição de obra prima de registro jornalistico/humano/histórico/político que conquistou prêmios relevantes mundo afora, só no Festival de Veneza, o longa abocanhou o CICT-UNESCO Enrico Fulchignoni Award; o Farplay Cinema Award; o Human Rights Film Network award (menção Especial); o Fundazion Mimmo  Rotella Award (menção especial); Leoncino D’Oro Agiscuola Award – Cinema for UNICEF. Fora indicações e seleção oficiais em outros festivais. lembrando que foi o filme de abertura da 41ª Mostra de Internacional de Cinema de São Paulo.

 

Considerações finais

A própria história de vida de Ai Weiwei se mistura com com o painel apresentado em “Human Flow”, a forma com a qual o filme foi produzido, com uma babel de nacionalidades, culturas e línguas entre sua equipe técnica. Por aí é facil entender o preciosismo na constituição da obra. Imigrante que conquistou seu espaço em outro país, em outra língua,  por perseguições políticas, Weiwei fala bem o dialeto do mundo e usa magistralmente o poder do cinema como veículo de massa, como possibilidade de linguagem para fazer o que sempre fez em seus nichos de atuação, criticar os desmandos e injustiças instituídos como ordem vigente. Mas o diferencial é a forma com a qual faz isso, docemente. Mostrando as mazelas humanas, mas apresentando o bálsamo: nós mesmos com outras atitudes. “Human Flow: Não Existe Lar se Não Há para Onde Ir” é um mosaico histórico do movimento humano, pois foi através desse mesmo mecanismo que povoamos o planeta há 140 mil anos atrás. A diferença é que não haviam muros, cercas ou portões. O documentário é digno de figurar na cinemateca de cinéfilos que se prezem.

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Deserto

Deserto (Desierto) (Drama/Thriller); Elenco: Gael Garcia Bernal, Jeffrey Dean Morgan, Alodra Hidalgo; Direção: Jonas Cuarón; México/França, 2015. 88 Min.

Em meio à construção do muro norte-americano que separará México dos EUA, a produção de 2015, dirigida por Jonas Cuarón  estreou no circuito. 2 anos de depois de produzido o longa vem trazer á baila um assunto poderoso no momento, o movimento de migração. Famosa por ser uma migração á procura de uma vida melhor em termos econômicos, mais do que por motivações políticos, a travessia México/EUA é a coluna vertebral dos assuntos trazidos por essa produção mexicana e francesa para se pensar o ser humano e sua digital.

Estrelado por Gale Garcia Bernal no papel de Moisés e co-estrelado por Jeffrey Dean Morgan no papel de Sam, a história soa como uma metáfora mensuração de forças entre Davi e Golias. Roteirizado, dirigido e editado por um dos irmãos Cuarón, “Deserto” conta a história de um grupo de latinos que tenta atravessar a fronteira do México com os EUA e os perigos enfrentados para realizar o sonho americano, o “American Way of Life”, ou seja viver na terra da ‘liberdade’ , juntamente com  Mateo Garcia, no roteiro, a história se detém na impossibilidade de seguir o caminho planejado quando acertaram seus negócios com o Coyote (Erik Vásquez) devido a uma patrulha inesperada na fronteiro, restando apenas a possibilidade de seguir um caminho alternativo, vigiado por único homem, Sam (Jeffrey) e seu cachorro Tracker. As metáforas são procedentes. O tio Sam personificado na personagem de Jeffrey Dean Morgan , numa caçada a céu aberto de seres humanos como se fossem animais selvagens na pradaria, numa caçada animal sem empatia, sem conexão e feroz. Homens que se odeiam sem se conhecerem e o afeto que Sam devota a seu animal com muito mais apreço e empatia do que ao semelhante.

Produzido por Alfonso Cuarón de “Gravidade” (2013), “Deserto” tem uma equipe técnica respeitável. A trilha sonora eletrizante foi composta por WoodKid da série de TV “Divergente” e a fotografia, que se assemelha em muito a dos filmes de John Ford é de Damian Garcia dos premiados “Güeros” (2014) e “Chicogrande” (2010). E ainda, no elenco Gael Garcia Bernal que dispensa apresentações e Jeffrey Dean Morgan o ‘Negan’ de The Walking Dead” que rouba o filme inteiro. Logo, não foi surpresa a premiação da crítica, o FIPRESCI de apresentação especial “por usar o cinema puro para criar uma forte senação de aprisionamento num espaço tão vasto, num clima de caçada primitiva” no Festival de Toronto. O longa, foi ainda, seleção oficial no Festival de Londres e indicado a premiações em várias categorias no Ariel Awards.

“Desierto” (no original) é uma boa pedida para análise de aspectos xenofóbicos num momento de grande migração mundial em que, politicamente, essa movimentação vem sendo forçada. “Deserto” vale o ingresso pelas suas metáforas e peculiaridades; por se tratar de uma produção latina falando de sobrevivência e violência e pela estupenda atuação de Jeffrey Dean Morgan, mesmo para quem não é fã do ator. “Deserto”  vai da panopticidade ao close e vale mais do que pesa.

DESIERTO

 

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Maria – Não Esqueça que Eu Venho dos Trópicos

Maria – Não esqueça que Eu Venho dos Trópicos (Documentário); Participações: Maria Martins (imagens de  arquivo), Miguel Rio Branco, Paulo Herkenhorff, Michael Taylor, Carolyn Christov-Bakargiev, Verônica Stigger, Mario Cravo Filho, Lucia Romano, Celso Frateschi, Malu Mader; Direção: Francisco Cataldi Martins e Elisa Gomes; Brasil, 2017. 80 Min.

Quanto mais paramos para ouvir histórias sobre mulheres e suas ações desbravadoras de caminhos, mais nos admiramos do quanto somos polivalentes, camufladas e polimorfas (licença poética), e que com graça e muita classe conseguimos imprimir nossa marca no mundo, o doce veneno de nossos exemplos a outras gerações. Driblando o poder instituído com um sorriso gracioso a mulher vanguardista prossegue sempre em suas conquistas com se fosse quase uma missão encarnatória, e é isso que nos mostra o documentário dirigido por Francisco Cataldi Martins, conhecido como Ícaro Martins e  a atriz, produtora e pesquisadora Elisa Gomes que trazem a história da embaixatriz Maria Martins (1894-1973) e seu trabalho como escultora, na primeira metade do século XX.

Existe um dito popular que diz que “Amélia é que era mulher de verdade”, descendente de Eva – me apropriando do conto adâmico – era perfeita submissa e silenciosa. Reza outro conto, o do folclore popular hebreu medieval que as desobedientes eram descendentes de Lilith – uma personagem paralela ao conto adâmico e que fora  criada do barro e não da costela de Adão. Maria Martins se encaixa nessa metáfora belíssima que desenha a rebeldia feminina classuda diante do patriarcalismo, como descendente de Lilith. Uma mulher nascido no Século XIX, que ousava se separar e casar-se com outro quando ainda não existia o divórcio no Brasil. Que tinha uma relação aberta com seu marido, que fôra amante de Marcel Duchamp e Benito Mussolini, gostava de  gente e vivia nas latas rodas das sociedades americana e européia. Casada com o diplomata Carlos Martins, Maria não se prestava ao papel decorativo de promover chás beneficentes e resolveu trabalhar. O detalhe é que estamos falando da década de 30. Foi nesse período que Maria iniciou seus trabalhos em terracota, mármore e cera perdida, mudando para o bronze, matéria a qual se identificou a passou a produzir seus demais trabalhos.  E como se não bastasse tudo isso,  seu tema era o desejo como essência humana, e seu viés a sexualidade feminina. Pioneira na arte da escultura no Brasil, como mulher, sua abordagem é político-transgressora; seus objetos: deusas, monstros sensuais, a nudez, a carnalidade explícita e implícita. Sua relação com Marcel Duchamp – escultor e poeta francês – é um atravessamento que consta no longa com um link de sua liberdade e transgressão pessoal. Inspirado nela, Duchamp esculpiu o seio (“Prière de Toucher / Toque por favor) que fôra capa do catálogo da exposição “Le Surrealisme” em 1947.

“Maria – Não Esqueça que Eu Venho dos Trópicos” é um documentário que segue uma forma interessante. Os pensamentos e textos atribuídos a Maria e demais, recebidos por ela de amigos, incluindo Marcel Duchamp são lidos pelos atores Lúcia Romano e Celso Frateschi e as entrevistas são conduzidas por Malu Mader. Entre os entrevistados estão: Michael Taylor curador do Museu de Arte da Virgínia, EUA; a curadora do Documenta 13, Carolyn Christov-Bakatgiev; a escritora e crítica de arte Verônica Stigger; o artista plástico Mario Cravo Filho; o fotógrafo Miguel Rio Branco e o curador e crítico de arte Paulo Herkenhoff. Assistir ao longa-metragem nos faz voltar ao tempo de Maria através de seus relatos pessoais e poéticos e, ao mesmo tempo, nos faz senti-la uma mulher do século XXI, tamanha a sua atualidade e vanguardismo.

Ícaro Martins é um dos pioneiros do novo cinema paulista, roteirista do documentário: “Tempo de Resistência” (2003) de André Ristum e co-diretor do filme “Luz nas Trevas: A Volta do Bandido da Luz Vermelha” (2010) juntamente com Helena Ignez. Assina a direção de “Maria – Não Esqueça que Eu Venho dos Trópicos” com Elisa Gomes que estreia como diretora e traz para a telona um primor de pesquisa biográfica. O documentário seleciona público pelo seu conteúdo e pelos caminhos que ele percorre – o das artes plásticas  – e no nicho no qual está inserido a alta sociedade mundial e o rastro de uma brasileira ilustre. E que nos diz, com todas as letras, que o reconhecimento tardio, infelizmente, é nossa característica nessa modalidade primitiva de existência na qual estamos. Mas, mesmo assim o documentário cumpre bem esse papel – o de reconhecimento – e de homenagem a uma mulher além de seu tempo. Vale o ingresso!

 

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Victória e Abdul : O Confidente da Rainha

Victória e Abdul: O Confidente da Rainha  (Victoria and Abdul) (Biografia/Drama/História); Elenco: Judi Dench, Ali Fazal; Tim Pigott-Smith; Direção: Stephen Frears; Reino Unido/EUA, 2017. 111 Min.

Baseado numa história real, registrado no livro escrito por Shrabani Basu a partir de escritos encontrados de Abdul Karim e outros exíguos documentos, o longa-metragem dirigido por Stephen Frears do magnífico “Ligações Perigosas” (1988), conta a história da amizade entre a Rainha da Inglaterra (Século XIX) e um indiano, a quem tomou como servo particular e posteriormente “munshi” – uma espécie de professor. Estrelado por Judi Dench, a abordagem é, basicamente, afetiva, mas também política. Já que a Índia estava, a época, sob a égide econômica e política da Inglaterra como uma colonia de exploração.

Com 62 filmes no currículo como diretor, Stephen Frears não se cansa  de trazer abordagens inusitadas e com uma produção esmerilhada. Seu último trabalho foi “Florence: Quem É Essa Mulher” (2016) no qual trouxe à baila a história de uma socialite americana – Florence Foster Jenkis – que não via limites para suas vontades, uma delas a  de ser uma cantora de ópera. Recursos, tinha. Mas, faltava-lhe talento. Stephen fez uma abordagem muito digna e humana de alguém que era risível à distância. Agora, o diretor embarca na história, não menos inusitada, de uma rainha que desenvolve uma relação de amizade e, até de intimidade, para os parâmetros protocolares da realeza, com um indiano muçulmano. O detalhe é que a ano é 1887, o país, a Inglaterra, em pleno exercício de seus desmandos colonialistas em território indiano. A amizade soa como uma afronta, um acinte diplomático por parte da índia para os aristocratas ingleses. O que Frears, juntamente com o roteirista Lee Hall,  de “Billy Elliot” (2000) fazem é uma abordagem magistral.

O filme tem destaques poderosos, dentre eles a direção de arte de Sarah Finlay de “A Bela e a Fera” (2017) e de Adam Squires de “T2 – Transpotting” (2017), que é  primorosa. E ainda, o figurino de Consolata Boyle, indicada ao Oscar duas vezes por: “Florence: Quem É Essa Mulher”  e  “A Rainha” (2006). Mas, não há como falar de “Victoria e Abdul” (no original) sem mencionar  Judi Dench e Ali Fazal. Judi, Oscarizada por  “Shakespeare Apaixonado” (1998) é uma diva que vai da franquia “007” ao projeto Theatre Live de Kenneth Branagh com louvor, que tem mais de uma centena de filmes em sua carreira e que, hoje aos 83 anos, dá um show de vida e competência;  Ali Fazal é um ator indiano que iniciou sua carreira em 2009 em Bollywood e cujo trabalho mais conhecido é “Velozes e Furiosos 7”. A interação entre os dois atores é uma metáfora belíssima da própria história de Vitória e Abdul, a rainha e o plebeu, a diva do cinema e o recém aparecido vindo dos confins da Ásia para o mundo, Ali fazal. A química entre esses dois profissionais é sensacional.

sobre a História? É o mais comum dos argumentos, o que acontece a todos nós mortais, o encantamento entre dois seres humanos que, diferentes, veem no outro a possibilidade de aprender, de conhecer coisas novas. O diferencial é o protocolo real e uma aristocracia perturbada, um plebeu sonhador e todo um contexto de conquista territorial política e econômica de exploração e, só. Stephen Frears é competente em mostrar a fonte de riqueza de conhecimentos cotidianos que, nós seres humanos, somos para o outro, com realidades e perspectivas diferentes. A ode, no longa de Frears, é à diferença,  e mostra como ela que nos completa; e, ainda,  nos apresenta a interseção como sendo a igualdade como seres aprendizes, com indivíduos que vivem suas vidas cumprindo um papel e, com a obrigação de se relacionar uns com os outros. A imagetização que Stephen Frears promove da sede de alma que temos pelo outro é fantástica. Em contrapartida, na mesma linha subjetiva, nos mostra a crueldade e do que somos capazes para limpar todos os registros históricos de uma amizade tão interessante, do polimento social hipócrita e o que se esconde atrás dele com poucos takes de olhares. O trabalho sutil é simplesmente genial. Com “Vitória e Abdul: O Confidente da Rainha” a admiração, a necessidade e o apreço pelo outro é quase palpável. Assistir o filme é perceber o quanto Frears é detalhista e o quanto preconiza as peculiaridades de conexões entre pessoas e, ainda, o quanto nada é impossível. Vale o ingresso e o quanto pesa.

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Börg vs McEnroe

Börg vs McEnroe (Biografia/Drama/Esporte); Elenco: Sverrir Gudnason, Shia LaBeouf, Stellan Skarsgaard; Direção: Janus Metz; Suécia/Dinamarca/Finlândia, 2017. 107 Min.

Existem filmes que situam-se em nichos específicos, e abordam, em detalhes, as especificidades pertencentes a seu contexto e, mesmo assim, conseguem abranger até quem não entende de suas questões com competência. Talvez, o segredo seja escolher um viés que seja comum aos pobres mortais e ir aprofundando o assunto em doses homeopáticas. Foi assim em “O Capital” (2012) de  Costa-Gavras em que, o cineasta consegue colocar o espectador diante de um gráfico de mensuração de valorização/desvalorização de ações do mercado financeiro, apreensivo como se tivesse assistindo a uma partida de futebol. É assim, no filme de Janus Metz em que, se sabendo do resultado  da partida de tênis de Wimbledon de 1980 entre Börg e McEnroe, todos ficam sob tensão mesmo que não entenda nada de uma partida de tênis. O segredo, talvez seja, o que temos em comum em nossos cotidianos. Em “O Capital”, a ambição; em “Börg vs McEnroe”, a competitividade. Na quadra de tênis do longa-metragem dirigido por Metz estão digladiando a inteligência emocional o naturalismo cru das emoções, o “Iceborg” contra o “pavio curto”.

A história abarca a infância, a juventude e a final de Wimbledon de 1980 em que, a sagração do nº1  do  tênis mundial estava em jogo. Para Börg  pela quinta vez, para McEnroe, pela primeira vez. Não é segredo algum ou spoiler  que aqui se conta a história de dois ídolos do tênis mundial: Björn Börg, pentacampeão de Wimbledon e hexacampeão do torneio de Roland-Garros,  conhecido como “IceBorg” pela sua frieza e autocontrole; e John McEnroe, também campeão mundial e por algum tempo o nº 1  do esporte, vencedor de vários campeonatos mas, mais conhecido pelo seu comportamento temperamental que renderam algumas raquetes quebradas, uma expulsão de quadra e a perda gratuita de um dos campeonatos que disputou. Os atores que interpretaram esses dois gladiadores da era moderna foram o sueco Sverrir Gudnason de “O Círculo” (2015) e o americano Shia Labeouf de “Ninfomaníaca” (2013). Com Sverrir o que surpreende é sua semelhança com o próprio Börg, e em Labeouf sua interpretação visceral da personalidade de McEnroe.

“Börg vs McEnroe” de Janus Metz é um painel de confronto de diferentes inteligências emocionais e foi indicado ao Camerimage (o Oscar da fotografia) pelo trabalho sensacional de Niels Thastum, vencedor do prêmio com o filme “Nas Dyrene Drommer” (2014), um filme de terror e suspense dinamarquês muito competente. Outro destaque vai para a edição de Per K. Kirkegaard de “E Agora?! Roubei um Rembrandt” (2003) e Per Sandholt de “Terra Minas” (2015). Sem o trabalho dos dois o filme não teria a mesma tensão. Tudo isso sob a batuta de Janus Metz do documentário “Armadillo” (2010) onde acompanha durante seis meses um grupo de soldados dinamarqueses na guerra do afeganistão; e do roteirista Ronnie Sandahl  do premiado “SvenskJävel” (2014).

Em suma, “Börg vs McEnroe” se assemelha a “Rush: No Limite da Emoção” (2013) que consegue falar de um nicho muito específico mas abarca o grande público com maestria. Ao contrário do que pode insinuar o título e os cartazes de divulgação, não é para entendidos em tênis, é para qualquer ser humano que já descobriu que tem-se que ter controle emocional para conquistar algum espaço neste mundo insano. Ou seja,  o longa é caviar que serve bem a quem consome atum.

os jogadores reais Björn Börg e John McEnroe

 

 

 

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Steppe Man

Steppe Man (Çölçü) (Drama); Elenco: Salome Demuria, Vidadi Hasanov, Javidan Mammadly. Vüsal Mehraliyev, Bahruz Vagifolgu; Direção: Shamil Aliyev; Azerbaijão, 2012. 80 Min.

Ganhador do prêmio de melhor narrativa no Calcutta International Cult Film Festival* (CICFF)  de Março de 2017 “Steppe Man” é uma produção azerbaijana de 2012 que desde seu lançamento vem sendo exibida em festivais mundo afora, por cinco anos. O longa-metragem dirigido por Shamil Aliyev traz para o espectador o movimento da vida através do cotidiano de um criador de camelos numa estepe, longe da cidade grande, e faz um recorte de tempo longo, aproximadamente 20 anos. Ressalta a simplicidade e aquilo no qual todos nós somos iguais, independente da etnia, da cultura ou da época histórica, a necessidade das conexões de afeto.

A história baseia-se na rotina repetitiva de um pai viúvo que cria seu filho só e amargurado numa estância de criação de camelos, ressaltando os aspectos culturais de sua educação. O filho cresce na calmaria da propriedade. Até que um dia seu pai falece e ele tem que se haver com a vida sozinho.  Um dia encontra uma mulher fugitiva da cidade com uma outra realidade e costumes, interpretada por Salome Demuria. Não tendo para onde ir, a mulher vai ficando e se aproximando do cotidiano da estância e do homem da estepe. O longa versa sobre a lentidão da vida e suas repetições, ao mesmo tempo que, sobre sua complexidade e  riqueza. O recorte de tempo é de duas gerações e mostra o ruído e a integração entre a tradição e a modernidade.

“Çölçü” (no original) é um filme, marcadamente, cultural que enfatiza nossas semelhanças, independente das diferenças instituídas. Tocante em seus silêncios, o filme é um manjar para quem gosta de refletir sobre a grandeza das diferenças, o quanto ela tem a nos oferecer em aprendizado e o quanto a vida se impões para além de nossos planos. Escrito por Vidadi Hasanov, que faz o pai, e dirigido por Shamil Aliyev do documentário “Iz Gala” (2010) que versa sobre o desaparecimento da Etnia Village Gala; o longa tem uma característica que chama a atenção, a sua equipe técnica não é conhecida internacionalmente ou premiada como se costuma ovacionar, são todos, à exceção de Salomé Demuria, profissionais com trabalhos locais, alguns estreando na função como o o roteirista e o diretor de arte. O trabalho competente conseguiu ser visto e respeitado em festivais importantes, como: o da Ucrânia em 2013; o Mundi International Film Festival da República Tcheca (2013); em Madri, no seu Festival Internacional em 2014; foi seleção oficial, também, no Bucharest Film Festival em 2016 e, este ano exibido em Chicago no Blow-Up International Film Festival Arthouse Film Festival e, enfim, em março deste ano levou o prêmio de melhor narrativa no CICFF.

Com tanto barulho partindo de uma produção simples, forte em conteúdo e vindo de um país que não tem tradição em cinema, não dava para não falar de “Çölçü” e compartilhar com os leitores do Blog Cinema e Movimento o que o cinema anda fazendo por aí. Esse instrumento poderoso de diluição das barreiras idiomáticas e culturais que, no caso de “Çölçü” ainda nos mostra que não são necessários os dólares americanos para fazer sucesso. Pois o longa azerbaijano pela sua jornada e perseverança  já é um sucesso dentro do seu nicho, e está disponível na plataforma Vímeo para o público em geral. É uma obra para ser  apreciada  sem moderação.

*Sobre o Calcutta International Cult Film Festival é um festival online como o  My French Film Festival  só que ele é mensal, com categorias bem peculiares como: Web and New Media;  Mobile film; Drone films;  Films on Desabilities Issues; Educational Film; Silent Film, e outras que não se vê em outros festivais. É bastante inusitado.

  • O link do filme, de acesso público, foi nos enviado por Sr. Shamil Aliyev e disponilizamos aqui para os leitores do Blog Cinema e Movimento com os devidos agradecimentos ao Sr Aliyev pela preferência (filme completo)
  • Confira o making of (Aqui!)

 

 

 

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